Influências de Jazz e de Blues estão presentes nos instrumentos de sopro no ES

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O Blues é um estilo musical que nasceu nos Estados Unidos a partir do século XVII, quando os escravos negros da região Sul faziam canções de trabalho nas plantações de algodão e outras músicas relacionadas a sua fé religiosa. O conceito de “blues” só se tornou conhecido depois do término da Guerra Civil Americana, período em que passou a representar a essência do espírito da população afro-americana. Ele inflou o surgimento de novos estilos como o Jazz e, posteriormente, o Rock de Elvis Presley.

O estilo atravessou gerações e territórios e, suas influências ecoaram, de forma expressiva, na década de 1950 no Brasil, sendo uma das inspirações para o movimento da Bossa Nova brasileira. Hoje, o ritmo continua conquistando admiradores e influenciando músicos, alunos e professores que têm nas influências do Blues, e também do Jazz, inspirações para arranjos e interpretações musicais.

As influências do Jazz e do Blues são presentes, também, no trabalho com instrumentos de sopro, como trompete, trombone, clarinete e saxofone. As bandas sinfônicas e orquestras são exemplos de locais onde essa influência é percebida. Na verdade, esses grupos funcionam também como escolas e referências para crianças e jovens que estão ingressando e tecendo as primeiras notas e arranjos.

Lyra Carlos Gomes

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Em Alegre, esse trabalho com as influências do Jazz e do Blues e percebido na Lyra Carlos Gomes, uma associação com 80 anos de fundação, que reúne em torno de 30 músicos na banda sinfônica e cerca de 50 alunos que estudam instrumentos musicais. Elivelton Silvestre é diretor musical da Lyra e conta que é possível perceber influências do Blues e do Jazz em estilos brasileiros executados pelos alunos do grupo.

“A nossa linha está mais na influência que o Jazz teve no Brasil. O Jazz e o Blues são estilos um pouco mais complexos para o músico que tem que ter um conhecimento a mais para tocar. O aluno começa aprendendo o básico do instrumento. Depois, de acordo com seu professor, e levando em consideração o seu desejo, o músico vai buscar estudar mais, para um conhecimento maior sobre escala e teoria musical”, conta o Elivelton, que também é o maestro da Lyra Carlos Gomes.

“A gente costuma falar muito de estilo ‘jazzístico’. Você pega, por exemplo, um ritmo, que você quer e introduz uma harmonia mais complexa, uma harmonia mais trabalhada, a gente costuma dizer que aquilo ali ficou estilo ‘jazzístico”, explica.

No município de Alegre, entre as décadas de 1930 e 1950, já houve uma influência maior dos estilo Jazz e Blues, com a banda “Ok Jazz” que tocava nos bailes na cidade. Também em Alegre, se destacou um grande nome na música, o maestro Wilson Laerte de Oliveira, com um trabalho chegou a ter repercussão nacional.

Crianças e jovens no Sopro

O diretor musical afirma que para um jovem ou criança, no futuro, se desenvolver no estilo Jazz e Blues é preciso, antes de tudo, ter uma boa base em instrumentos de sopro e também no piano e baixo. “Para que a gente possa fortalecer essa inserção das crianças e virmos a ter adolescentes ou adultos tocando bem o estilo do Jazz e do Blues, precisamos realmente fazer essa introdução aos instrumentos de sopro”, acrescentou.

“Eu sinto uma pequena desvalorização. Talvez não tanto pelos alunos que estudam hoje, que gostam do que estudam, mas eu sinto uma pequena desvalorização da própria sociedade, talvez mais ligado ao Poder Público. Há uma certa dificuldade em manter isso que a gente tem hoje. As Liras sãos as principais mantenedoras de escolas que oferecem esse tipo de trabalho no interior”, relata Elivelton.

“O meu professor de clarinete, por exemplo, começou na escola de música da Lyra com 13 anos. Hoje, ele tem 19 anos e é o professor de clarinete. Com 19 anos, ele está dando aula para os alunos. Cresceu aqui, no instrumento de sopro. Ele acaba influenciando os outros meninos a estudar o instrumento”, salienta o diretor musical.

A Lyra Carlos Gomes, atualmente, não conta com parcerias com o Poder Público. Há um convênio com o Conselho da Infância e do Adolescente que repassa recursos do Fundo da Infância, o que possibilita ofertar aulas pra as crianças e adolescentes. Porém, essa parceria não engloba o patrocínio de aulas para os adultos que integram os componentes da banda.

“Hoje, em Alegre, temos o financiamento do Conselho da Infância e do Adolescente, que é especificamente, para ensinar música para criança e temos bastante crianças nos instrumentos de sopro. Eu acho que o interesse se dá mais por ver a banda que já existe tocando e querer fazer parte”, pondera.

Nos últimos três anos, o convênio com o Conselho da Infância e do Adolescente possibilitou a compra de diversos instrumentos musicais para o grupo. Na última parceria, foram adquiridos oito instrumentos de sopro e uma bateria, na Caparaó Music, em Guaçuí. A loja apoiou a Lyra ao vender a bateria em melhores condições de preço para adequar a aquisição ao projeto da banda.

Técnica e improviso

Ainda de acordo com Elivelton, o Blues e o Jazz tem características próprios que aliam a técnica, mas também improviso. “Não é, propriamente, um estilo ‘quadrado’ tipo a música erudita que você escreve uma partitura pronta e, simplesmente, vai executar. O Blues e o Jazz para serem bem tocados, bem executados e bem aceitos tem aquele “feeling” do improviso, de ser uma coisa mais solta”, explica o maestro.

O Blues e o Jazz estão para os Estados Unidos assim como o samba está para o Brasil. “Antigamente, se falava que o Brasil não executava tão bem esse estilo de música porque tocávamos uma música de forma mais ‘quadrada’, nossos improvisos não saiam como os improvisos americanos que era aquela coisa bem espontânea. É a mesma coisa que você colocar um europeu para tocar samba, não vai ficar a mesma coisa que um brasileiro”, finaliza Elivelton Silvestre.

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