TEMIDO MOTOR DA VIDA

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Algumas pessoas vivem como se a morte não fosse uma realidade sem tempo nem espaço, uma verdade que se aproxima sem aviso e as abraça em absoluto. Pessoas que buscam tudo que possa completar vazios, materiais ou não, vazios que elas nem sabem possuir. Se agarram em fiapos de redes tecidas ao longo da vida acreditando fielmente e inconscientemente que a morte não virá. Batalham uma guerra já perdida desde o nascimento e não sabem da futilidade dessa atitude.

Outras sabem da sua inevitabilidade e a percebem como um poderoso motor da vida, das células que se vão para dar espaço às novas ao aprendizado que vem com os erros. Sabem que a vida continua exatamente porque se deixa morrer o que nos afasta do nosso propósito, hábitos e coisas que deixamos para trás porque percebidos como obstáculos ao sentido da nossa existência. São as suas pequenas representações que aos poucos vivenciamos até o momento inadiável.

Ser imortal não seria deixar a vida ao acaso porque eterna? De onde sairia a pulsão da vida, da criatividade, da renovação e da evolução? Não se transforma o mundo sem que os ciclos sejam concluídos a seu tempo e forma e, reiniciados, deixem em seus legados as molas que impulsionam e inspiram a seguir em frente.

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A compreensão desse motor poderoso leva tempo, um tempo que nem sempre temos. Nesse durante se teme a morte pela dor desconhecida enquanto se esquece da dor que precede a vida nascida, da dor gerada nos momentos de crescimento e aprendizado onde são forjados os valores e pilares daquilo que construiremos e deixaremos aos demais. Está presente nesse temor o simbolismo do “nunca mais” e o esquecimento que poderá surgir após o adeus.

Daqueles poucos que conseguem o tempo da compreensão podemos perceber a nítida sensação de que ainda tem muito a fazer e contribuir, de que o tempo de suas vidas não é suficiente para as riquezas que acreditam poder gerar e doar. Com eles aprendemos a lamentar as amarras que serão postas em nossa curiosidade de criança que busca ao máximo as maravilhas criadas e não conhecidas, e com sorte saberemos superar os lamentos e valorizar cada oportunidade surgida.

A morte física não é inimiga nem amiga, apenas é e nesse existir inexistindo nos empurra, anima, inspira. Não tocada nem vista é um enorme motor que dá sentido ao tempo inspirado, que vivemos raramente e que dispara descobertas e razões fortes em nossa alma para tocarmos em frente. Por causa dela temos, ironicamente, a força e a criatividade que perpetuam a vida além do seu limite físico. Em suas linhas nos tornamos continuidade, chegada e partida.

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