Sobre jeguices e outras asneiras iluminadas para venda

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Postagens em redes sociais oferecem conselhos sobre como detonar campanhas eleitorais de quem você não gosta, ou mais especificamente, de quem os conselheiros odeiam. Entre uma e outra “preciosa” dica consegui salvar alguns raciocínios singulares. Acompanhavam os conselhos as opiniões nada isentas, claro.

A experiência de um dizia, com a ressalva de ser apenas uma abordagem pessoal, que o ponto mais importante era não tentar mudar a opinião dos que votariam no adversário, mas convencer os indecisos. Pior, ainda qualificou os que seriam descartados como agentes do ódio e da irracionalidade e, portanto, intransigentes a quem não valia a pena dedicar qualquer tempo.

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A sensatez das palavras é claramente percebida quando se lê outras postagens do conselheiro pregando o respeitoso debate e o direito de todos a ter voz. Em trapos de entendimento, ele e seus companheiros de pensamento são os iluminados, pacíficos e verdadeiros respeitadores da opinião alheia e ao mesmo tempo detentores únicos do discernimento e da visão do lado certo, como se houvesse e, existindo, claro que deles. Do apontado lado oposto, o errado e condenável por todos os motivos enciclopédicos, uma multidão de asnos selvagens. Perdidos entre um e outro, inocentes ovelhas aguardando pastoreio.

Outro ilustre ninguém, com palavras suaves que classificavam o alvo de sua cruzada com adjetivos muito próximos de saídos de uma cloaca, ainda ampliou a justificativa garantindo que a adjetivação dada era irrelevante para o mundo. O que realmente interessava para a humanidade era o básico, direitos como saúde, segurança e renda.

O estulto conselheiro, que se coloca como o suprassumo da evolução humana, deve ter transcendido as necessidades básicas e migrado em definitivo para seu mundinho ideológico perfeito, com vida acadêmica plena e zero de suor, de onde pode continuar enriquecendo a todos com suas graças conquistadas por enorme experiência teórica de bandeira.

Na contramão do bom senso, onde todos os livros de uma biblioteca são igualmente importantes, os conselheiros salvariam da enchente somente aqueles poucos sempre manipulados com capas facilmente classificáveis, usando suas bolsas da década de 1960, e deixariam os demais se perderem (não importa se já estivessem guardados em caixas com rodinhas ou em um caminhão cheio).

Chama a atenção ainda o alerta tantas vezes repetido contra os eleitores declarados do adversário, apresentados como bodes berrando com um tipo de ódio saído de jogos de videogame e dotado de poderes especiais. Um ultra ódio berrante que convence imediatamente as ovelhas a seguirem o som e se transformarem em novos bodes berrantes. Daria até um roteiro de “filme Z” se a prateleira já não estivesse cheia com os geniais manuscritos dos seus iguais iluminados ao longo da história e descartados por obviedades.

Como se fosse um tipo de mestre Yoda desastrado que não muda a ordem das palavras mas o seu sentido, um afirma que o silêncio os sepultará e a todos os que defendem suas bandeiras quando na verdade é exatamente o contrário, seu ridículo e etéreo falar e agir é que os tornarão pó. Cerram os punhos e os levantam se achando estandartes de luz a afugentar as trevas projetadas pelo adversário. Só em imaginar a cena penso que as lágrimas viriam se a trilha sonora original não fosse o caminhão de lixo acionado.

Não sabem ou escolhem não saber que sua espontânea e infantil empáfia já esgotou a paciência daqueles livros que abandonariam. Lembra da biblioteca? Milhões de livros!

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