Sob o céu da cultura

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Em meio à crise econômica e política em que se encontra o Brasil, muito se discute se existem alternativas para o desenvolvimento do país. Aos descrentes e desanimados de plantão é preciso reafirmar o compromisso com o diálogo para a construção de caminhos que levem em consideração o povo brasileiro e não os interesses de alguns. Mas como desenvolver pontes se o fosso da desigualdade social só aumenta?
Segundo o livro “O Capital no Século XXI”, assinado por vários pesquisadores, entre eles o respeitado Thomas Piketty, especialista em estudos sobre desigualdade de renda, 1% mais ricos concentra 28% de toda a renda no Brasil. Diante desse cenário vergonhoso, não se pode esperar grandes avanços sem uma real transformação das políticas estruturais de desenvolvimento. Esse fator é fundamental para aumentar a igualdade entre as pessoas, único caminho possível para fazer do Brasil um país decente. Em meio às vozes políticas estranhas com slogans ultrapassados motivando a intervenção militar, faz-se necessário a instalação de uma mobilização social mais sofisticada. Se o Brasil deseja ser considerado um país de fato desenvolvido, precisa seguir o exemplo de países sérios, e não faltam exemplos a respeito. No livro “Desigualdade, o que pode ser feito” do pesquisador Anthony Atkinson, há uma lista de quinze medidas para diminuir a desigualdade, entre elas algumas alternativas como: taxar os mais ricos, garantir recursos públicos para a seguridade social e criar políticas públicas de emprego e renda para os mais pobres. Não se trata aqui de uma visão mais esquerdista sobre a atuação do Estado, mas de uma verdadeira dimensão cultural capaz de observar o ser humano de forma transdisciplinar.
Um exemplo na prática de política ultrapassada é a cidade do Rio de Janeiro. Pesquisadores, cientistas sociais e estudiosos de segurança pública sabem que a intervenção federal só aprofundou a criminalidade na cidade. As ações contra a violência são combatidas pela ideologia da guerra, sem qualquer inteligência tática ou cooperação com demais organizações. Na verdade, trata-se de um espetáculo político. Conforme experiências internacionais, as únicas saídas para o desmonte da criminalidade e da violência são os grandes três fatores: igualdade social, educação e cultura. Parece utópico acreditar numa visão mais justa e igualitária quando o país proíbe a venda de alimentos orgânicos e libera o veneno. Ao mesmo tempo é preciso compreender que esse não é o entendimento do povo brasileiro e sim de políticos compromissados com interesses econômicos. Dessa forma, a cultura precisa ser a ferramenta diária de desmantelamento dessa maneira suja de lidar com a coisa pública. Como num filme, parece que o passado ainda assombra o Brasil. É um momento oportuno para reivindicar um papel mais incisivo da sociedade civil nas organizações culturais do país. Os Conselhos Municipais de Cultura são grandes ferramentas de participação e podem colaborar para a criação de uma agenda criativa dentro das cidades. O cerne do problema do Brasil é a instalação equivocada de uma falsa ideia de que não há solução para o país. Na verdade, essa é uma compreensão que faz parte de um jogo covarde para que a injustiça continue.
Por isso, faz-se necessário crer na cultura, não só como uma pasta simbólica, mas como a única dimensão possível para desobstruir a via da igualdade, do desenvolvimento sustentável e da retomada da força criativa e econômica do Brasil. Para que isso ocorra é necessário que agentes públicos estejam compromissados para ir além dos quatro anos de mandato. Por outro lado, é fundamental que os artistas assumam postos de comando nas organizações culturais no Brasil. Para que volte a crescer, o país carece da participação efetiva dos produtores culturais. É preciso acreditar, com ações concretas, que o céu da cultura um dia se abrirá. Para que isso aconteça, os mestres precisam ser ouvidos. Parafraseando Albert Camus: “Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe; a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro”.

Jussan Silva e Silva é produtor audiovisual formado em Direito pelo Mackenzie, pós-graduado em Direito do Entretenimento pela UERJ e com MBA em TV Digital pela UFF. É idealizador do Festival de TV e Cinema de Muqui/ES. É consultor de projetos audiovisuais. Assessora produtores, cria, formata, desenvolve e apresenta projetos ao mercado audiovisual. É palestrante em eventos e cursos nessas áreas.

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