Saudades

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Não vamos falar do tempo, essa figura simpática que nos acompanha desde antes. Vamos falar de acordar na praia antes do sol e voltar para Cachoeiro, de tomar café com leite na padaria e devorar alguns pães quentinhos com manteiga de sobra, tudo ao lado de papai.

Época de balanço na loja e para Alemão isso significava contar cada parafuso ou porca existente, de todos os tamanhos. Para dar conta, pedia ajuda aos filhos e, como primeira experiência de “trabalho”, acredito que não decepcionamos.

Os escaninhos de venda avulsa guardavam, além dos parafusos, sobras de sua fabricação. Lascas pequenas de metal que combinavam com aquele espaço entre a unha e o dedo. Era a única coisa que me incomodava.

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Pensando nessas pequenas lascas vejo que as que papai encontrou pela frente eram de tamanho muito superior, e que se minha primeira experiência era quase um brincar de trabalhar a dele foi trabalho de verdade com bem menos anos que eu.

Não me recordo de murmúrios por nada que ele tenha passado, mesmo quando falava de um ou outro fato, e já queria muito ser como ele em relação aos desafios da vida. Se é para ser feito, que seja feito e só existe um jeito de fazer, o jeito certo.

Aquele amigo que disse que não iria citar se fez presente, e você se vê em seu primeiro emprego, segundo, terceiro, concursos e provas, esposa e filhos. O momento de enfrentar as lascas que eram somente minhas chegou sem avisos, algo próprio da natureza das lascas.

Os que me cercam devem ter ouvido algum murmúrio da minha parte, confesso que não tenho a fibra à altura da do meu pai, e a eles agradeço por ouvirem. Por outro lado, fibras mais elásticas que me foram proporcionadas pelo estudo serviram de escudo e curativo quando precisei e, se murmurei, não deve ter sido em quantidade que sirva para me conceituar.

Sinto a sua essência de tal forma que não posso ignorar, mesmo após esses anos de sua ausência física. Sei também de sua presença pelo simples fato de que das suas fibras vieram as minhas e porque nele me espelhava, às vezes com algumas faíscas, claro, mas sem incêndio ou dano permanente que abalasse o legado.

As lascas assumem diferentes formas e reagem e perdem seu poder quando as enfrentamos, e crescem e nos martirizam se as tememos. Esse foi o sentimento que amadureceu ao observar e de longe procurar saber, porque mesmo sem palavras o contato nunca foi desfeito. Pode até parecer estranho a alguns mas as palavras não eram tão necessárias, o olhar era. E também o aham.

Não vou falar que não dói, porque dói muito se as lembranças ficarem muito soltas, fora do seu espaço de guardar. Acho que o segredo é permitir que esse espaço seja visitado com frequência, aberto e ventilado, renovado, transformando a dor que teima em virar lágrimas ocultas e pontadas saudosas no peito em mais respeito e amor, e em um obrigado especial a Deus por ter sido ele o meu pai, nenhum outro.

Ciclos percebidos que se repetem, se alternam, se refazem e se iniciam diferentes, e o da paternidade que não se perde, mas se eterniza com todo o amor ainda daquela criança ao acordar antes do sol.

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