Reforma meia-boca

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Entramos na contagem regressiva de um ano para as eleições 2018 – 1º turno dia 7 de outubro, 2º turno, 28 de outubro – com poucas mudanças nas regras, uma vez que a  reforma eleitoral feita lembra a história da montanha que ruge, ruge e acaba parindo um rato assustado. No caso, o rato pode ser representado pelo fundo eleitoral de R$ 2 bilhões que foi criado. Porém, até as urnas existe um deserto para ser atravessado em meio a uma crise econômica e institucional, do “Fora” ou “Fica” Temer e dos respingos da Lava Jato. E ainda há a crise hídrica agravando essa travessia pelo deserto.

Já a tão esperada renovação do Congresso caminha para ser outra miragem, pois mudaram para deixar quase tudo igual. Ou como diria aquele personagem de Tomasi di Lampedusa em “O Leopardo”: “Algo deve mudar para que tudo continue como está”. Tanto que reformas mais profundas, como voto distrital e cláusulas de barreira, que poderiam impedir reeleição de vários dos atuais parlamentares, foram jogadas para 2020/22.

“Como qualquer pessoa, parlamentar não dá tiro no próprio pé”, foi o comentário ouvido junto à bancada federal capixaba. Já os vereadores reclamam que, mais uma vez, vai sobrar para eles o papel de cobaia: disputar uma reeleição sem suporte da coligação partidária, em 2020. Também ficaram pelo caminho da reforma propostas de mudanças como acabar com a figura do vice e a emblemática figura do suplente de senador.

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A propósito, para que serve um suplente de senador? Todos sabem que ele está ali basicamente para financiar a campanha do titular. E para substituir o titular, em caso de impedimento, basta convocar o candidato mais votado registrado na computação dos votos nas urnas. Isso elimina o risco de algum empresário sem voto cair de para-queda no Senado. Enfim, nem sempre aquilo que parece óbvio predomina na lógica dos interesses.

Agora está aberta a temporada de movimentação dos candidatos. Como maioria dos parlamentares não abre mão da reeleição e já possuem estrutura e recall, as novidades devem emergir entre aqueles que conseguirem trabalhar bem o conceito de redes sociais com campanha auxiliada pela “vaquinha eletrônica”. Por hierarquia, a disputa presidencial sempre se revela mais impactante, embora até aqui não seja nada animador o que surge no horizonte das pesquisas: Lula, Bolsonaro, Dória, Marina…

Em termos regionais, a disputa ao governo caminha para uma polarização entre o grupo hegemônico de Paulo Hartung (PMDB), que ora mira a própria reeleição ora a chapa presidencial, e o bloco que abriga a senadora Rose de Freitas (PMDB) e o ex-governador Renato Casagrande (PSB). Dias atrás, Rose e Casagrande voltaram a conversar e reafirmaram o compromisso de caminharem juntos.

Dos três, Rose tem a situação mais favorável, pois seu mandato vai até 2022, e pode sim arriscar seus trunfos numa disputa com PH. No recolhimento de cartas sobre a mesa, a senadora já arranjou em Vitória um aeroporto e um porto pra chamar de seu, ela que até bem pouco tempo era considerada a “rainha dos grotões” por sua atuação municipalista sem projeção na Grande Vitória.

Quanto a Casagrande, seu capital político não pode ficar mais quatro anos sem a injeção de um mandato. Na travessia dos próximos meses, ele terá de definir se vai disputar o governo, como querem vários aliados, ou se lança ao Senado, conforme deseja a senadora aliada. Sua única saída de emergência será concorrer à Câmara Federal.  No mais, toda travessia sempre é sujeita a surpresas, boas e más.

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