PESSOAS DE ALMAS BELICOSAS

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Caminhando pelas ruas de Itapemirim, observando a beleza dos enfeites natalinos e a alegria das crianças pousando para fotografias, de repente escutei uma voz vinda de um automóvel, gritando pelo meu nome. Ao me virar, vi um amigo de infância correndo com alegria ao meu encontro. Quantas emoções recordadas, quantos sentimentos, quantas pessoas tiramos da memória e do coração, quantos risos em poucos minutos.

Entre uma recordação e outra, dentro de pouco tempo, cada um contou o percurso que havia feito ao longo da vida. Contei-lhe a minha trajetória do ensino fundamental até a minha recente mudança para o município de Itapemirim. Ele, por sua vez, contou-me que, entre outras aventuras, havia morado em diversos países. E que, depois de vinte e cinco anos, estava de volta ao nosso Brasil. Contou-me também que resolveu retornar ao país depois que o seu trabalho se tornou proibido na região em que morava nos Estados Unidos. Explicou-me que, como estudou medicina veterinária, ao chegar nos Estados Unidos, abriu uma empresa que criava e comercializa Pitbull – atividade lucrativa até que a criação desse animal se tornou proibida por colocar em risco a população.

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Perguntei-lhe com certo espanto: risco à população?! Devido a minha manifestação de espanto, a conversa rendeu. Explicou-me que essa espécie de cachorro é uma mistura, um tipo de cão perfeito para o combate, capaz de vencer e destroçar oponentes duas ou até três vezes maiores. Uma raça de cachorro que se sobressai pela agressividade, robustez, agilidade, habilidade para lutar e morder, grande resistência física, tolerância à dor e grande capacidade de recuperação dos ferimentos. Em seguida, disse-me que, no entanto, são incontáveis os casos de pitbulls que morderam os donos, os vizinhos, e até mataram crianças. Num dos casos, a criança que sempre brincava com o cão. O relato aumentou, mais ainda, o meu espanto.

Depois desse histórico, perguntei se mesmo sabendo de tudo isso ele tinha em casa um cão dessa raça. Tratou de responder logo: eu, como todos os donos, não cansamos de garantir que temos controle sobre nossos adoráveis pitbulls e não aceitamos nem ouvir a hipótese de prendê-los em canil apropriado. Sempre acreditamos que nossa fera é diferente.

Ao sair daquela conversa, comecei a pensar que, dentro de muitos lares, existem pessoas pitbulls. De uma hora para outra, por mais bem tratadas que sejam, sofrem explosão de temperamento, praticam atos impensados. Casos graves e casos leves que, nem por isso, deixam de prejudicar a família inteira. Existem muitos maridos e esposas explosivos. Verdadeiros pitbulls. Descontroles e descontroles. Mesmo assim, insistem em viver juntos, um apostando no seu pulso. De repente, não dá outra. Confiou demais! Há milhares de pessoas pitibulls nas prisões, cumprindo quinze a trinta anos de pena por uma explosão de ira.

Empresas perdem contratos, amizades são desfeitas. Famílias e namoros acabam. Filhos, mães, pais, irmãos, perdem alguém querido, tudo porque uma pessoa pitbull, que não aceita perder, em um segundo constrói tamanho ódio que precisa dar o troco.  Filhos, pais, esposos, irmãos, amigos, espaçam-se, sangram até a morte. Dependências diversas, egos descontrolados, desmesurados, levam a atos imediatistas e impensados, dos quais se arrependem, mas que, por não admitirem tratamento, voltam a cometer.

A verdade é que sozinho ninguém controla os próprios impulsos desmedidos.  O pitbull um dia morde seu cuidador, outro dia mata e destroça o cãozinho que com ele convivia há tempo. A pessoa agressiva vive de gatilho armado, pronta para mostrar sua superioridade momentânea, fruto de sua inferioridade permanente. Aquele que não controla seu temperamento está sempre em grau de inferioridade. As pessoas de alma belicosas precisam de ajuda. A maioria não admite. Precisam de domador. A maioria não aceita. São pitiblls à solta pelas ruas das nossas cidades. São pitiblls soltos em muitos lares. Resta apenas uma recomendação: quem não tem curso de domador, fuja deles e delas porque, uma vez contrariados, atacarão. O resultado, o número de vítimas cotidianas, é incontável.

 

Pe. José Carlos Ferreira da Silva

O autor é Padre, Escritor, Psicólogo Clínico, Jornalista, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, em Itapemirim – ES, e membro da Academia Iunense de Letras.

 

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