Perdeu perdendo, perdeu ganhando

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Quando era vereador em Cachoeiro de Itapemirim, o baiano Magno Malta (PR) surpreendia interlocutores ao afirmar que um dia ainda chegaria à Presidência da República. Poucos levavam fé, alguns riam, outros achavam bravata, mas o homem – dono de articulada oratória e extremamente midiático – foi subindo em sua escalada eleitoral. Dali virou deputado, foi eleito senador duas vezes e agora, como nunca antes, andou bem perto de cumprir a própria profecia feita na Câmara de Cachoeiro, lá no início da década de 1990.

No início deste ano, vale lembrar, Malta era o “vice dos sonhos” do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), andaram conversando, o partido do senador atravessou a conversa, e a coisa não evoluiu. Agora, diante da iminente eleição de Bolsonaro como presidente, Malta tem motivos para se arrepender por não ter insistido e investido naquele projeto acalentado desde Cachoeiro. O que faltou? E por que a opção pela reeleição? Possivelmente, porque o próprio Malta não deve ter levado muita fé em que Bolsonaro chegaria lá. Afinal, quase todas simulações de pesquisas davam Bolsonaro como derrotado, num segundo turno.

Provavelmente, naquela de trocar o certo, sua reeleição, pelo duvidoso, deixou a vice-presidência passar arreada à sua frente, puxando carruagem, séquito e tudo mais. Preferiu disputar a reeleição, porém foi surpreendido pelo “fenômeno da renovação”, e perdeu a vaga. Perdeu ainda por não conseguir surfar na onda Bolsonaro, seu notório aliado. Malta só não perdeu todas fichas nestas eleições porque ajudou a eleger à Câmara Federal a cantora gospel Lauriete, sua mulher. E poderá ocupar algum cargo no governo Bolsonaro. Aliados próximos garantem que ele tem interesse de chefiar o Ministério das Relações Exteriores. Então, Malta perdeu ganhando. Porém, dificilmente ele terá oportunidade igual para alcançar sua grande meta desenhada quando era vereador na acanhada Câmara de Cachoeiro.

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Não menos ambicioso, o governador Paulo Hartung (MDB) também acalentou disputar a presidência da República, cogitou virar opção de vice em alguma chapa, andou fazendo conversas neste sentido, fora do Estado, ao longo do ano passado. Depois, quando sinalizava que iria para a reeleição, preferiu sair da disputa e abrir para os aliados a escolha de alguma candidatura. “É hora de passar o bastão”, justificou-se, revelando ainda desencanto com o cenário nacional. O que se viu na sua base-aliada foi algo parecido com aquela sensação, a bordo da aeronave, quando surge o aviso: apertemos cintos que o piloto sumiu.

Ainda assim aliados acalentavam que o governador, com a máquina na mão, seria influente para ajudar a eleger candidatos mais próximos, como o deputado federal Lelo Coimbra (MDB), o vice- governador César Colnago (PSDB), o ex-secretário da Segurança André Garcia, entre outros. A maioria perdeu perdendo mesmo. Ninguém caiu pra cima. E a eleição de Renato Casagrande (PSB) ao governo sinaliza que os aliados de PH não terão muita chance de “perder ganhando” alguma secretaria ou cargo de projeção. Mas como em política tudo é possível, melhor aguardar.

Já o senador Ricardo Ferraço (PSDB), antigo aliado de PH, mesmo tendo se abrigado na coligação de Casagrande, não conseguiu a reeleição. Depois do “abril despedaçado” – em 2010, foi preterido na disputa ao governo – Ricardo Ferraço viveu seu “outubro de volta à planície”. De consolo, viu o pai ser reeleito na Assembleia Legislativa, a mulher dele à Câmara Federal. E quando deixar o céu do Senado, no final de janeiro próximo, poderá ser aproveitado na equipe de Casagrande.

E ainda teve mais um episódio marcante da série “Perdeu ganhando” protagonizado pelo deputado federal Carlos Manato (PSL), que disputou o governo mais com intenção de dar palanque regional a Bolsonaro do que lograr êxito. Iniciou a disputa ao governo com apenas 4% das intenções de votos e acabou ficando em segundo lugar conquistando 27% dos votos válidos, um feito e tanto, além de ter ajudado a eleger sua mulher, Soraya, à Câmara Federal. Agora, Manato já se comporta como quem incorporou o papel de representante maior de Bolsonaro no Espírito Santo.

 

 

 

 

 

 

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