Os tipos de amor

Entender o amor não é tarefa fácil, mas a gente tenta, pelo menos, chegar perto disso

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Há algum tempo quero escrever esse texto, mas só agora consegui realmente sentar para pensar em tudo o que é importante dizer sobre o sentimento mais bonito que qualquer ser humano pode viver, o amor. Ah que romântica! Não tanto… Meu forte nunca foi esse, prefiro mostrar o meu carinho de outras maneiras. Mas o amor que quero falar aqui é na essência, na raiz, afinal, você já parou para entender  a definição dessa palavra?

Uma boa maneira de, pelo menos, tentar classificar o amor é olhar para a língua grega. Por lá, quatro principais palavras definem esse sentimento são: philia, storge, eros e ágape. Então, a gente pode dizer que existe diferença de amores? A resposta é sim. E é isso que essas palavras nos mostram.

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O amor que você sente por seus amigos e familiares

Comecemos pelo Philia, para os gregos esse é o amor que você sente pelo seu amigo. Mas não é qualquer amigo, é aquele que já é quase da sua família, aquele que você se identifica e tem um carinho que nem consegue equacionar. Um exemplo de amizade verdadeira desse tipo que sempre gosto de citar é a de Montaigne por Étienne. O filósofo, jurista e escritor Michel de Montaigne, era amigo de Étienne de La Boétie, também filósofo e humanista francês, e entre os dois havia uma cumplicidade invejável, até que Étienne ficou muito doente, contou com o amigo ao seu lado o tempo todo e faleceu precocemente. O choque para Montaigne foi tão grande que pouco ele falava sobre o ocorrido. Certa vez, perguntaram a ele em uma entrevista porque gostava tanto de Étienne e a única resposta que ele deu foi: “porque era ele”. Mais tarde, o filósofo completou sua frase em seu ensaio sobre amizade e disse “porque era ele, porque era eu”. Talvez essa seja uma das definições mais lindas de amizade e desse amor philia, que tanto oferece carinho, que tanto gera troca e identificação eterna.

E será que vivemos esse amor nas nossas amizades? A palavra amigo se tornou tão comum ao longo do tempo que fica difícil defini-la com tanta intensidade como acabamos de fazer. Hoje você tem 1000 amigos no facebook, mas quantos deles perguntam se você está bem? Lembram de seus projetos? Sonham junto com você ou estão ali sempre que você precisa? Poucos, talvez nem 1% não é verdade? Valorize-os! E pense que assim como você precisa deles, eles também estão precisando, agora, muito de você!

Agora vamos para o segundo tipo de amor, o Storge. A palavra que não soa tão simpática está aqui para mostrar um dos amores mais fortes que a gente vive nessa vida, o amor mais incondicional: o da nossa família. É o sentimento, por exemplo, da mãe quando ama um filho, independentemente de qualquer circunstância. Quanto vale um amor de mãe? Como é difícil mensurar! Quando imagino nessa intensidade, lembro da música criada por Chico Buarque em homenagem a Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones, jovem militante que foi morto e torturado durante o período da ditadura militar no Brasil. Na letra, Chico usa essas fortes frases para tentar mensurar a dor de Zuzu ao ver o filho assassinado: “Oh pedaço de mim/ Oh, metade arrancada de mim/ Leva o vulto teu/ Que a saudade é o revés de um parto/ A saudade é arrumar um quarto de um filho que já morreu”. Preciso falar algo mais? O Storge é o amor que você sente pelo seu pai, pela sua mãe, pelo seu filho, pelo seu marido um amor sem medidas, que ultrapassa qualquer barreira. E que a gente precisa tanto nessa vida viver e valorizar.

Mas, e o amor entre casais?

Essa pergunta é comum, afinal, quando a gente pensa em amor logo vem os coraçõezinhos explodindo, declarações e músicas dramáticas orquestradas embalando os casais apaixonados. Bom, vamos lá! Para os gregos o amor carnal, a paixão avassaladora é chamada de Eros, que tem, sim, associação como “Erótico”. Quando você se atrai por aquele homem, ou aquela mulher, que tem a aparência e um jeito de seduzir que você sempre sonhou. O amor eros encanta e é bonito de se ver e viver, mas, pode ser possessivo e temporário. Quantas vezes você já não se atraiu por alguém e, ao longo do tempo, viu que aquela pessoa não era bem assim e percebeu que a chama daquela paixão toda… apagou? Pois é, isso é mais comum do que se pensa, e acontece principalmente nesse amor aqui, que pode valorizar mais a aparência do que a essência, mais a sensualidade, do que a afinidade.

Então, qual é o amor que pode fazer uma relação durar anos? É nessa hora que a gente chega ao amor mais bonito que os gregos definiram, o Ágape. É esse amor que muitos cristãos classificam como o amor de Deus. É o sentimento mais elevado, do mais alto carinho que se pode imaginar. Para os cristãos inclusive chegar ao Ágape completo é humanamente impossível, mas a gente pode chegar bem perto disso e melhorar, e muito nossas relações.

O Ágape é o tipo do amor que só ama, e não pede amor de volta. Que só quer o bem da pessoa, que não é egoísta. Já pensou abrir mão de alguém que você ama só para vê-lo feliz? O Ágape está nesses pequenos desafios. É que ele enxerga que, mais importante do que tomar o outro como posse é vê-lo feliz. O Ágape também perdoa os erros mais imperdoáveis, porque é baseado na compaixão, do tentar enxergar pelos olhos do outro para entendê-lo e compreendê-lo. Um amor puro, sincero e lindo que a gente sempre tem que tentar buscar em todas as nossas relações.

Enfim, depois de ver os amores aqui descritos nesse texto, você já parou para pensar que tem muita gente por aí que não anda vivendo eles dessa maneira tão pura? É preciso perdoar, compreender e até em alguns casos, se afastar, de quem a gente ama para ver essa pessoa feliz, e quem ama de verdade mesmo, tem em sua maior satisfação ver o outro feliz. Devemos sempre buscar, como diz uma letra muito bonita da Maria Bethânia que gosto muito, viver o amor “de alma para alma”.

 

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