OS CAMALEÕES DO DIA A DIA

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Sabe aquele dia em que os olhos não acompanham o pensamento? Aqueles dias em que os pensamentos não acompanham os sentimentos? Naquele dia em que poucas coisas te chamam a atenção? Poucas coisas te levam a focar em algo?  Aqueles dias em que você olha e não consegue ver?  Foi em um desses dias que uma cena, um fato da natureza me chamou a atenção.  Perdido com um olhar no horizonte, vejo um movimento na grama a alguns metros à frente.  Tratava-se de um camaleão que se tornou da cor da grama em busca de um pequeno grilo.

Um disfarce perfeito! Ao tomar a cor da grama, sob a qual se esconde, consegue, de maneira ousada, chegar perto dos pequenos insetos sem qualquer suspeita de perigo. Essa cena, na qual o pequeno grilo não teve um final feliz, trouxe-me de volta à realidade, remeteu-me ao contato comigo mesmo e me levou a pensar e a refletir sobre as armadilhas do cotidiano.

De volta ao mundo, real e interno, fiquei imaginando quantas vezes, da mesma maneira, o mal se transforma na forma que menos tememos e coloca diante de nós objetos de tentação que são os mais agradáveis à nossa natureza e, assim, pode logo nos aproximar de sua rede. Não falo e nem penso em bicho ou numa força oculta. Aliás, o mal, conforme nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, não é uma abstração, mas é uma pessoa e tem nome: o anjo decaído do céu.

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Nesse sentido, ponho-me a lembrar de algumas situações em que certas pessoas se colocam como companheiros em nossas viagens existenciais. Geralmente, esse tipo de gente navega com qualquer vento e nos leva para aquele caminho em que nos inclinamos para a fraqueza da natureza humana.

Somos medrosos e temerosos? Ele nos tenta, conduz ao desespero. No campo da fé, nosso conhecimento é pequeno, deficiente? Ele, então, tenta-nos ao erro. Nossa consciência é frágil? Ele nos tenta ao perfeccionismo e a muita precisão. Nossa consciência é muito larga, como a linha eclíptica? Ele nos tenta à libertinagem. Somos pessoas de espírito ousado? Ele nos tenta à presunção. Temos uma disposição flexível? Ele nos tenta à inconstância. Somos rígidos? Ele trabalha para fazer de nós heréticos, cismáticos e rebeldes obstinados. Somos de temperamento austero? Ele nos tenta à indulgência e à pena tola. Somos quentes em questões de religião? Ele nos tenta ao zelo e à superstição cegos. Assim, ele coloca suas armadilhas para, de um modo ou de outro, enlaçar-nos.

Para quem se coloca no caminho do seguimento, esses camaleões, quando não combatidos, podem até mesmo nos tirar da comunhão com Deus. Eles fazem forte oposição à alma que quer se achegar cada vez mais ao Coração do Pai.  Mas, para vencer o inimigo, é preciso conhecê-lo, saber de suas estratégias e artimanhas. Pela luz do Espírito e pelos ensinos da Igreja, conseguimos desvendar as artimanhas e insídias do inimigo de Deus. Que Deus nos dê a graça de perceber sempre a presença dos camaleões do cotidiano.

Padre José Carlos Ferreira da Silva

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