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Eu tinha recém-conhecido a obra de Sérgio Sampaio, na faculdade eu participava de um espetáculo sobre sua vida e seus trabalhos, Sara Passabon dirigia. Chegando 13 de abril, Alessandra Biato me convidou para um show de Aroldo Sampaio, Marcela Lobo, João Moraes no Teatro Municipal Rubem Braga. Isso em 2008. É tempo, não lembro bem os nomes, as ações, mas lembro de ter querido continuar a noite animada em outro local. Alessandra me guiou até um café bar no centro da cidade que eu ainda não conhecia. Passava sempre em frente, desde quando ia estudar no Ciac Raymundo Andrade, pelas andanças do centro, menino conhecedor, observando as coisas. Via o prédio da Prefeitura, sempre com sua imponência no centro de tudo, as árvores e o vai e vem das pessoas que passam e te olham, mas desviam o foco, o comércio sempre em efervescência e ali, miúdo, mas sempre com seus senhores e cigarros, risos e bate-papos intermináveis, via o Mourad’s. Por um tempo achava que era só um café pequeno e, por não ter mais espaço, as pessoas ficavam aglomeradas na calçada mesmo. Naquela noite, descobri que havia mais. Alessandra me levou, eu entrei. A porta estava baixada, era preciso bater no portão de ferro para que uma pequena porta acoplada fosse aberta. Era noite e o Mourad’s estava “aberto”. Felipe Mourad comandava essa programação, um tanto underground, um tanto libertadora para um bando de jovens que precisava daquilo para encontrar um pouquinho do seu lugar no mundo, respirar e rir. Entramos. Então, sou apresentado à moça jovem, bela dos cabelos lisos e olhos de jabuticaba. Conhecia Milena Paixão, essa mocinha de poesia na alma, irmã até hoje. Conhecia a arte de Caetano Monteiro, Felipe Mourad, os boêmios apreciadores de grounge, pop nostálgico, álcool e verdades, Amélia Barretto soltando a voz, rindo ao microfone, a gente era feliz e não sabia.

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O Mourad’s, ponto de encontros de políticos e discussões políticas, sobre a cidade, discussões acirradas sobre a atualidade, do café do Barbosa sempre acompanhado de um sorriso bonito daquele barista-ícone, o que sabe tudo, do bolo do dia e do pão de queijo sempre quente, da referência para a descendência síria, turca e libanesa no sul do Espírito Santo, esse Mourad’s não foi exatamente o que eu conheci. Fiz parte de uma geração que chegou ao fim dessa era, que se encerra agora com o fim das suas atividades após 29 anos de existência. Ali fiz um dos primeiros Saraus Verbo Intransitivo, fiz leituras dramáticas, participei do ENCUCA, um movimento rápido de artistas da cidade, jovens querendo efervescer a cidade. Planejei projetos, reuni amigos e artistas para falar de arte, de cultura, confessei, ouvi confissões, achei que, no vai e vem da cidade, poderia sempre ter um respiro ao entrar no Mourad’s, sentar em uma daquelas cadeiras verdes ao lado dos históricos ladrilhos hidráulicos e poder pensar, ter um local a disposição para que a política e a cultura se desenvolvam sem fronteiras e limites. Encerra-se um local de resistência, mais um que perdemos em meio ao caos em que estamos. Enchente e pandemia, como permanecer? Um local com raiz, feito por amor. Elias, Sandra, Jorge, Neia. O futuro. A memória. O agradecimento. “O resto é silêncio.”

Luiz Carlos Cardoso e ator e produtor cultural – @lcarloscardoso

 

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