O PODER E A BELEZA DA RECORDAÇÃO

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Lembra-se daquela casa de praia onde você passou bons momentos no verão? E aquele hotel que marcou alguma viajem que fez na sua vida? O cheiro da casa dos avós, a sensação de chegar em casa depois de um bom tempo fora? Já reparou como tijolo e concreto podem te causar emoções e sentimentos diversos?

Existe um quadro no programa do Luciano Huck, chama-se “Visitando o Passado”, onde a produção do programa recria os espaços que fizeram parte da infância de muitos artistas diferentes. É emocionante ver como um ambiente pode causar tanta comoção.

Às vezes me pego refletindo em frente alguns patrimônios históricos que já passei. Certa vez, viajei com minha família para Petrópolis, que é o local certo para quem curte história, frio, vinho, e bons lugares.

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Um dos passeios foi visitar a casa de Santos Dumont, o inventor do avião. Reviver os momentos e os passos desse grande nome do nosso passado é mais que mágico, porque são dentro dessas situações que você conhece também a intimidade desses personagens, as manias. Uma delas estava nas escadas de acesso a casa. Como era muito baixinho, suas pernas acabavam batendo nas escadas, e o que ele fez? Cortou um pedaço do degrau, tendo neste apenas o local onde se por o pé, evitando que as canelas permanecessem roxas.

Pode perceber como a sua casa, quase sempre, tem suas manias e seu estilo em cada canto? Ontem eu fui prestigiar a inauguração da Espaço Casa, da minha amiga Marília Haddad. A forma de expor os objetos e móveis da loja foi através do Espaço Casa Habita, onde 9 arquitetos colocaram a sua forma de habitar em cômodos diversos. E o resultado?

Nenhum espaço se parece com o outro. Nenhum. Todos têm sua linha e estilo, um mais clássicos, outros industriais, outros mais modernos. Ainda que tivessem móveis ou sofás da mesma cor.

A recordação que determinados imóveis podem trazer e gerar tem poder e beleza. Alguns dos cartões postais da nossa cidade são centros históricos imobiliários. O Palácio Bernardino Monteiro, Teatro Rubem Braga, O Mercado Municipal (que tenho o sonho de fazer um trabalho voluntario para reformar, simplesmente amo aquele local). Todos imóveis com muitos momentos e relatos para contar.

Já observou que, no fundo, é tudo concreto e tijolo? Como em qualquer outro lugar, outra cidade, outra construção. Mas entender que cada um deles guarda risadas, tristezas, e que isso pode afetar a trajetória daquele imóvel para sempre.

Um forte exemplo é a casa do caso Suzane Richthofen. Há boatos que ela nunca mais foi comprada. Outro exemplo é o prédio do caso Nardoni e Marcos Kitano, diretor da Yoki. Estes imóveis podem ser até desvalorizados devido ao acontecido.

Ainda na visita a Petrópolis, fomos ao Museu Imperial, onde viveu a família de Dom Pedro II, é possível ver a mesa de refeições, os quartos onde dormiam. Visitar e ver quase um filme na sua frente.

E assim é em nossas vidas pessoais também. Ver na TV, como no quadro do Luciano Huck, a emoção que acontece ao visitarmos novamente imóveis que marcaram, por algum motivo, as nossas vidas. A minha casa de Marataízes é assim pra mim. Simples e acolhedora, são tantos anos indo para aquela casa todo verão, que cada detalhe marca. A árvore onde eu adorava brincar, o jardim, os momentos com amigos na varanda.

A casa do meu avô Constatino Tófano, eu e meus primos jogávamos baralho, ou brincávamos de pique. O quadro de Charles Chaplin na parede, o piso de madeira da sala. Até hoje passo em frente aquela casa no Santo Antônio, e o coração vibra diferente.

A casa da avó Luiza, sempre com balas de todos os tipos e grande aparelho de som preto que amava por música para dançar. Os sustos que levamos na cozinha quando algum dos meus três primos Leandro, Gabriel ou Rafael apareciam do nada. É ir lá e tudo isso voltar instantaneamente à memória.

Isso é tão forte que até quando vamos avaliar um imóvel para venda, percebemos o quanto o valor afetivo fala alto na hora de determinar o preço. Pois para aquela pessoa há muito valor ali.

Espero que você tenha recordações desse tipo também.

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