O MAR E SUAS DESPEDIDAS

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Gosto do mar, do banho e de simplesmente sentar na areia da praia e ficar olhando para o horizonte. Olhar toda aquela imensidão me faz refletir e voar no pensamento, mergulhar me relaxa e me faz desaparecer dentro de mim mesmo, deixando que as sensações me dominem.

Assim também é a vida para mim. Posso refletir de forma isolada ou existir imerso em suas turbulências e calmarias, nem sempre com o domínio do momento. São suas regras. Todas as riquezas oferecidas e dons recebidos e ainda assim submetidos aos seus limites, como nossos corpos e suas necessidades.

Há outros limites, uma verdadeira série deles até chegar a um dos mais ricos, a despedida. Como o barco que desaparece no horizonte e ainda assim sabemos que está lá, a vida também tem seu horizonte e nos despedimos frequentemente de pessoas, estranhas ou conhecidas. Algumas despedidas são especiais porque uma parte daquele que se foi ficou em nós e uma parte nossa se foi com ele, nos tornando mais completos em nossa jornada.

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Alegrias compartilhadas, valores herdados, dores solidárias e afetos que acariciam nossos corações, amor de neto e de neta, de filho e de filha, de pai e de mãe, de primo e de prima e de irmão e de irmã, de esposo e de esposa, de amigo e de amiga e de avô e de avó. Como medir essas partes de nossa existência? Não são para a balança nem para o papel, não são para cerimônias nem para o isolamento.

Uma jornada compartilhada nos permite a cada despedida multiplicar e perpetuar o que tem importância, o que nos aproxima do melhor de nós. De alguns barcos que se foram no horizonte podemos ter ficado com pouco ou com muito, sempre na mesma medida do que levaram. A beleza e a leveza de intensa presença, guardada com cuidado de cristal em nossa memória. Sim, a jornada nos permite e mesmo assim desperdiçamos.

Em nossa rotina deixamos de notar o que nos completa e nos envolvemos com coisas que não somam. Dedicamos nosso precioso tempo a amarguras e vazios que acreditamos existir em nós, que nos fazem acreditar existir em nós. Somos bombardeados por palavras de diversos valores, nossa mente se atrapalha com tanto ruído e não consegue aquele instante de sentar em silêncio na areia da praia e refletir, deixar seguir o que nada serve e reter o que é bom.

Acreditamos às vezes que em nossas vidas devemos parecer, devemos cultivar imagens projetadas do que achamos que os outros esperam ver. Não aprendemos que na vida nem todos os valores são bons em sua essência, não são universais. Ignoramos que cada um de nós cultiva seus próprios valores sem se dar conta da simplicidade do que realmente importa. Esquecemos constantemente das despedidas como se elas fossem somente para os outros, mesmo depois de uma ou algumas que nos afetaram.

O mar e suas despedidas nos lembram do que importa e nos resgatam. Ao olhar para o horizonte e ao mergulhar percebemos essa relação de grandezas de forma clara. Podemos desaparecer no horizonte ou sob suas águas. O mar é a vida em sua imponência, em seus ciclos e em suas rápidas jornadas. Se pararmos para visitar cada memória que guardamos e que nos faz sermos o que somos iremos enxergar como o tempo é relativo, veloz e impossível de segurar.

Vamos lembrar de despedidas que parecem ter sido ontem e não trinta anos atrás, porque o que ficou é tão vívido e forte em nosso peito e em nossa memória que consegue ignorar os ponteiros de qualquer relógio, ficando mais forte ainda a certeza de que o horizonte é somente um momento no tempo e no espaço que os barcos de boa jornada ultrapassam.

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