O DIABO DA GAVIÕES

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Uma nova polêmica norteia o campo religioso brasileiro, especialmente entre as confissões cristãs. Na madrugada do último domingo, a escola de samba Gaviões da Fiel trouxe na sua comissão de frente o diabo e “Jesus Cristo”. Jesus Cristo? Não, não era Jesus, o personagem apresentado na avenida do samba foi um emblemático cristão da história patrística. Trata-se de Santo Antão, o “Santo do Deserto”, o Santo Antão do Egito, o Anacoreta ou ainda “O Pai de Todos os Monges”.

A vida de Santo Antão (Antonius no latim) foi biografada por Santo Atanásio de Alexandria (A Vida de Antônio; Vita Antonii; cerca de 360 A.D). Segundo Atanásio, Santo Antão teria nascido em 251 (A.D), na Tebaida considerada como Alto Egito e falecido em 356 (A.D), com 105 anos de idade. Ele foi um cristão fervoroso que, com cerca de vinte anos encarnou literalmente o Evangelho de Cristo, distribuindo todos os seus bens entre pobres, vivendo de forma voluntária e sacrificial no deserto (Antonius era de família nobre e muito rica). Ainda segundo o relato de Atanásio, no deserto Santo Antão foi tentado pelo Diabo, tal como sucedera com Jesus. No entanto, a tentação de Santo Antão perpassou os bíblicos quarenta dias, no qual os demônios não hesitaram em atacá-lo. Contudo, o eremita Antão resistiu a todas eles e não se deixou seduzir pelo regalo dos olhos e muito menos pelas tentadoras ofertas que se multiplicavam à sua volta. Na biografia de Atanásio, Santo Antão venceu o diabo!

Destarte, esses foram os dois personagens retratados na comissão de frente da Escola Samba paulistana (o diabo do deserto e Santo Antão do Egito), sem a mínima intenção de agredir ou de ofender as plurais correntes cristãs. No mais, o problema do movimento evangélico desse país está longe de ser a simplória estética religiosa, os inanimados e criativos símbolos ou as hodiernas anomalias evangelicais. Não podemos confundir loucura com cinismo, este último sim, é o grande desafio não somente do universo religioso, como também do campo político. O “diabo do Brasil” não tem cor, não tem identidade e muito menos lado, pelo contrário, ele passeia elegantemente entre afagos, sorrisos e aplausos, convencendo tudo e todos, conforme o possessivo e cobiçoso paladar dessa sociedade acostumada a tratar anjos como demônios e demônios como anjos.

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Toda essa derrazoada revolta deveria se voltar para algo produtivo e inteligente. Não adianta atacar a misteriosa transcendência sem conhecer o significado da imanência. Também não é nada razoável apontar os canhões das críticas para o vento, é necessário conhecer os verdadeiros diabos que afligem a população brasileira, aqueles que vivem encastelados em seus palacetes refrigerados e cobertos do mais valioso marfim. Essa ilúcida polêmica precisa alcançar o campo prático, na qual as nossas atitudes serão a espinha dorsal e a essência do debate. Precisamos refletir sobre os grandes “diabos brasileiros”, os insaciáveis rufiões que se alimentam do pão da desonra, que trilham a estrada do engano e que voam sobre o falso céu. Engana-se quem pensa que os demônios deste país têm cheiro de enxofre, tem aparência intimidadora e forquilha afiada, nada disso, eles exalam o pomposo perfume da morte, hipnotizam suas presas com a mais fina e aveludada lábia e sutilmente aliciam os gananciosos discípulos do TER e do SER. Eles também ocupam as principais e disputadas tribunas, sustentam um moralismo caolho e pintam o profundo abismo como esperança! Falam de Deus, quando na verdade são “deuses” de si mesmos, cultuam a própria e polida face e encenam competentemente a farisaica espiritualidade. Esses sim são os verdadeiros e perigosos demônios, gente que transforma peixe em cobra e pão em pedra!

Portanto, não deixe que a sua fé ou a sua particular espiritualidade sejam abaladas por uma simples encenação de carnaval. Também não deixe de torcer para o seu time ou escola do coração, por causa da errônea e imposta interpretação dos confusos “gurus gospeis”, nada disso! Olhe para o Filho de Deus e somente para Ele. Busque o presente auxilio da Graça Divina para praticar e viver os preceitos e valores do Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo, e tenha piedade suficiente para compreender os loucos e repreender os cínicos, afinal, Jesus, o Santo Jesus, escolheu os loucos e não os cínicos.

Parabéns a Gaviões da Fiel pelo seu desfile e por trazer a avenida seu inofensivo “diabo”. Com toda certeza esse “diabinho avermelhado” não é o problema central do Brasil, e sim, os camuflados diabos da religião e da política brasileira,

Enfim, o diabo continua vestindo Prada e Prata,

Weverton Santiago

PS: Santo Antão, o Santo do Deserto, perdoe os líquidos e sensacionalistas exegetas cristãos do Brasil. Eles não sabem o que lêem, não conhecem nenhuma corrente interpretativa segura e não conseguem diferenciar um nobre discípulo do seu augusto Senhor.

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