Notas pessoais sobre a quarentena

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Aqui em casa, Iván colocou em prática um plano antigo, esses dias. Aproveitando que neste período de quarentena algumas lojas de material de construção podem abrir até determinada hora do dia, ele pesquisou e descobriu uma que vendia vasos e terra. Colocou em prática outro plano, oriundo da sua meticulosa observação das coisas. Depois de comer tomate, melão, pimentão, sacou delas as sementes e as cultivou em potes de plástico até que brotassem. Deu certo, exceto com as sementes de pimentão, não sei bem o porquê. Tomou as sementes já germinadas e as acolheu nos vasos e terras recém adquiridos. E celebrou. Sorriu, me deu um abraço, pensou que aquilo era o futuro, pelo menos, breve futuro. Poderia passar os próximos dias contemplando o crescimento daquelas obras da natureza, acompanhando de perto sua evolução. Molha, muda de lugar, coloca para tomar sol, recolhe para dentro de casa quando o vento é mais forte, faz todo um acompanhamento logístico desse que é seu atual empreendimento. Está em casa, é quarentena, o olhar fica mais apurado mesmo.

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O plano é antigo, como falei, porque plantar está em sua perspectiva de vida faz uns anos. Para Iván, engenheiro de profissão, o futuro está na terra, no negócio próprio, na própria plantação e cultivo do alimento. Ele sabe, não é de hoje, que a qualquer momento, tudo pode se danar. Tipo agora, a gente, mal podendo sair de casa, criando estratégias de guerra para poder sair, ir ao supermercado e voltar. E quando chega lá, são dezenas de pessoas colocando a mão na mesma batata, quando há batata, se for possível levar a batata para casa porque, em época de crise, a batata e qualquer outro produto podem variar de preço e dinheiro, você sabe, sempre falta. E, quando volta, depois de botar a roupa pra lavar, tomar um banho desinfectante, lavar as batatas com água e sabão, aí sim, pode-se usufruir desse bem da natureza se alimentando daquele tubérculo precioso, sem pensar que há menos dinheiro na carteira. Por isso, ele foi sagaz: viu que a natureza estava dando a ele a multiplicação dos pães, ou melhor, das frutas e legumes. Compre um melão e leve 10, 15, 20… sementes. Estamos aqui, aguardando ansiosamente que os galhos brotem com os alimentos. Orgânicos, bonitos, vigorosos.

Até lá, paciência. A natureza tem seu tempo que não é o nosso, o tempo humano, cronológico, gregoriano.

Dito isso, compartilho aqui com você, leitor, algumas notas pessoais sobre a quarentena ou, caso se sinta a vontade, pode chamar tudo isso de White People Problems:

– Nunca gostei de ninguém espirrando perto de mim. Isso, que falam agora, graficamente, da nuvem de gotículas que ficam no ar quando alguém espirra… sempre soube, sempre achei nojento e há anos tenho ódio de quando alguém espirra perto de mim. Minha vontade é de tomar um banho de álcool e tacar fogo pra desinfetar tudo.

– Em 2014, fiquei três semanas na Itália. Fato 1: em Roma, entrei num McDonalds, pedi um combo e me sentei. Abri o box com o hambúrguer e tomei o lanche com um guardanapo. Olhei para os lados e todos me olhavam. Olhei para todos e vi que ninguém fazia como eu. Todos comiam com as mãos, as mesmas que haviam acabado de tocar no dinheiro pra pagar o lanche, que haviam saído do metrô, que haviam apertado a mão do outro e tocado nos corrimãos.

– Fato 2: dias antes, passei 16 dias isolado no sul italiano. Eu, um diretor de teatro e seus ajudantes. Eram duas horas de trabalho por dia e só. Não havia nada e ninguém perto do lugar onde eu estava. Literalmente, vazio. Posso considerar que já tive uma quarentena na vida.

– A quarentena de agora varia entre o tédio e a produtividade, como deve ser a de muita gente. Comecei fazendo exercícios numa série de wods que recebo diariamente. Parei no terceiro dia. Arrumei meu guarda-roupa, limpo a casa quatro a cinco vezes por semana. Lavei roupas nos dias de sol. Arrumei livros, ainda não li alguns que estão na fila de espera. Editei um vídeo, escrevi uma dramaturgia e abracei muito o Ivan.

– Passar uma quarentena a dois é uma linha que faz várias curvas. Tem momentos em que ficamos lado a lado por horas, tem momentos em que cada um vai pra um canto. Criamos uma dinâmica: pra sentirmos um gosto de saudade um do outro, criamos autonomamente rotinas próprias e rotinas em comum. Café, almoço e jantar são juntos. Ele vê a série dele na sala, eu fico no quarto pela tarde. Vimos filmes, séries, bebemos, comemos, encaramos tédios terríveis, nos cansamos por fazer várias atividades aleatórias.

– Assim passam os dias. Quinta semana dentro de casa. Já fiz lives no Instagram, gravei leituras, tirei foto do céu, fiz um bolo, cozinhei como nunca, cuidei de planta, falei com amigos.

– Minha mãe é do chamado grupo de risco, tem mais de 60 anos e está em sua casa em outra cidade. Não a vejo há semanas e pode ser que esse tempo aumente, evitando correr riscos. Fazemos chamadas de vídeo e estamos bem.

– Adiei meus projetos para 2021. Eles já estavam em fase de pré-produção, mas nessa área, ao menos para mim, o ano já se perdeu.

– Penso em como será o teatro pós-pandemia. Como se comportaria um monte de gente ao pensar que um monte de gente se confinaria em um espaço fechado para assistir uma obra? Dança, música, teatro, circo, museus… Como se dará a troca, o toque, o abraço, limitados na vida real, espelhados na cena, na tela, no palco? O cinema me parece sobreviver. Tudo é técnico, maquiado e preparado antes, um abraço pode se dar depois de um banho de álcool, exames pré-realizados e assepsia dos técnicos ao redor e dos atores. Televisão também. Teatro, difícil. É ao vivo, na caixa, na rua, a cores, na real.

– A ciência diz que toda pandemia passa. A do HIV passou, apesar de ainda não haver cura. A do H1N1 também, apesar de ainda morrer gente. Já há vacina. A peste negra na Europa durou séculos, o pico durou 10 anos, dizimou 200 milhões de pessoas. A arte se espelhou na vida daquela sociedade e passou a fabricar obras sombrias, macabras, vislumbrando um fim apocalíptico. Medo, pessimismo e culpa estampavam as caras, as formas, as letras. Mas a vida continuou, gente continuou nascendo e morrendo, a América foi descoberta pelos colonizadores e por aí vai.

– Hoje saio, quando saio, de máscara, álcool em gel 70° no bolso. Vou e volto rápido. Por um momento, bem pouco mesmo, parecia enxergar um lugar em que as pessoas finalmente entendiam e praticavam a efemeridade das coisas. Que nada é pra sempre, que tudo acaba, que o fim sempre chega, e assim aumentarem o cuidado, o cuidar, praticarem isso. Engano. Nada como uma falta de paciência e uma busca pelo conforto para as pessoas logo saírem de casa e falarem cuspindo perdigotos na cara dos outros em plena pandemia e situação de calamidade pública decretada.

– Esses dias, entrando no supermercado, um homem espirrou forte do meu lado e do de Ivan. Forte mesmo, sem se proteger, nada. Espirrar é normal. Talvez ele até tenha se esquecido, mas o fato foi que espirrou, espirrou forte e do meu lado. Aí lembrei do meu nojo, lembrei de quando comi hambúrguer com o guardanapo, que é coisa que muito brasileiro faz, coisa de índio talvez, que eu não vejo esses hábitos e higiene em outras culturas, que tem gente que mal toma banho tendo água e sabão em casa e que tem gente que não toma porque não tem água nem sabão e não come porque não tem comida e não vive porque não tem vida nem presidente nem ordem nem saúde nem teto nem projeto nem dinheiro nem família nem trabalho nem direitos. Lembrei do egoísmo, que se há de se pensar em si, que seja também pensando que existe um outro. E se há um mínimo exercício disso, já há alguma coisa, algo como uma espécie de cura.

 

Luiz Carlos Cardoso e ator e produtor cultural – @lcarloscardoso

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