No Chiado com Madonna

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“Há dois bons caminhos para os jovens brasileiros formados atualmente: o aeroporto internacional ou tentar concurso público”

Precursor dessa idolatria recente por Portugal, o músico cachoeirense Marcus Levy mora no Porto há mais de 20 anos. Casou por lá, fincou raízes e segue tocando na vida – é um talentoso guitarrista, pianista e intérprete – e não tem planos de voltar, a não ser eventualmente, de passagem. Ainda mais agora quando Portugal entra no mapa não apenas de turistas, mas de brasileiros, principalmente da chamada terceira idade, que estão desembarcando por lá com mala, cuia e aposentadoria, em busca de lugar mais tranquilo para viver. Morar no Rio hoje, por exemplo, é para aventureiros.

A qualidade atual de vida de Portugal tirou o país daquele patamar onde era visto mais como piada brasileira sobre os eternos Manoel e Joaquim da padaria, as trapalhadas da corte de Dom João e o insaciável apetite lusitano pelo nosso ouro e as mulatas. Agora o país recebe elogios, como de Danuza Leão (“Como se come bem em Lisboa, aí Jesus”). Lisboa, com pouco mais de 500 mil habitantes, é vista por turistas atentos como a ”cidade que tem alma”, graças ao patrimônio histórico preservado e cultuado. A pouca densidade populacional, claro, ajuda muito.

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Outras vantagens que andam seduzindo pretensos moradores, nem que seja por temporadas: não tem terrorismo, ao contrário dos outros países europeus, nem bala perdida, e os impostos são baixos. Imagina que até Madonna anda curtindo uma temporada por lá. Mentaliza: na cama com Madonna no Chiado. E ainda tem a facilidade da língua, embora muitas vezes você sinta uma enorme falta da legenda, pois falam rápido e com sotaque, e a coisa embola.

Ah, e tem aquele clima. Nem tão glacial, nem tão quente. Outro apaixonado por nossa remota coroa imperial, o cineasta capixaba Cloves Mendes teve oportunidade de morar um período em Londres, porém o fog londrino baixou seu ânimo. Optou por fincar residência em Lisboa e ficar próximo das outras opções, como Espanha, França, Itália. Portugal é a Europa “boa e barata”, com serviços básicos a contento, transporte fácil. Até o fado, entoam os ardorosos, está se modernizando e já não é tão chato.

Tem as suas particularidades e nomes esquisitos: Rua da Reboleira, Beco do Quebra-Costas, Albufeiras, Fifa no Ninho… Há pouco soube que na cidade do Porto o insulto dos pais às crianças pode soar como elogio. Certamente, não foi essa a intenção do general Mourão quando ele disse que ibéricos gostam mesmo é de privilégios. O general descascou ainda os índios e negros repetindo aquilo que se tolera apenas numa sessão íntima de piadas sujas. Aliás, a piada agora somos nós.

Um presidente que parece mordomo de filme de terror, um presidiário que pode virar presidente ou um incensador de torturadores. O cenário econômico é tão incerto que as notícias sobre retomadas de crescimento e investimentos são muito mais manifestação de desejo de mercado do que a realidade mostrada pelas estatísticas. Quem pode, vaza. Quem não pode, vai ter que se virar por aqui mesmo. E vai ter que se virar nos vinte. Nos trinta, já deu, isso era nos bons tempos. A rigor, há dois bons caminhos para os jovens brasileiros formados atualmente: o aeroporto internacional ou concurso público. A iniciativa privada, cada vez mais seletiva e com salários achatados, tem raras ilhas de excelência.

Então, navegar é preciso, mas o português, Sardinha, primeiro bispo do Brasil, naufragou e acabou devorado por índios Caetés, em 1556. Também com aquele nome e dando sopa num litoral povoado de canibais, é piada-pronta no caldeirão da história. Agora Sardinha vai virar filme brasileiro com tempero meio português, meio índio. Errando ou acertando no destino, tempero e no nome, sempre somos resultado das nossas escolhas. A única coisa certa mesmo é a dúvida permanente.

 

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