Negócios e jogadas de efeito

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Antes de adquirir o antigo campo do Ouro Branco, o grupo Carone cogitou comprar o estádio do Estrela para instalar supermercado. Neste caso, a memória afetiva falou mais alto num cenário de pouco ou nenhum apreço ao patrimônio histórico

Por R$ 16 milhões, o grupo Carone acaba de comprar da Nassau, em Cachoeiro, uma área de 33 mil metros quadrados para instalar supermercado, e será a primeira loja da rede fora da Grande Vitória. A área adquirida é onde existia o antigo campo de futebol do Ouro Branco, pertencente à fábrica de cimento, palco de memoráveis partidas disputadas com sinistro cenário de fundo, o cemitério do bairro Coronel Borges bem ao lado. Ali, em partidas mais concorridas, para não pagar ingresso, torcedores se encarapitavam sobre as catacumbas.

Era um campo aberto também a estudantes, para seus tradicionais torneios de futebol, e foi ali defendendo as cores do ginásio Pedro Palácios que senti a diferença em relação aos campinhos de várzea a que estava acostumado. Na extensão daquele gramado, eu e meio time ficávamos perdidões, penando para se colocar e tendo que recalcular a força de cada passe ou chute. Nos últimos anos, tornou-se espaço subutilizado, pensou-se que poderia ser preservado para virar parque esportivo e recreativo destinado à comunidade, porém a realidade financeira e imobiliária falou mais alto e acima da própria memória afetiva dos cachoeirenses.

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Curiosamente, não é o primeiro campo de futebol da cidade a entrar no radar da rede supermercadista. Há cerca de cinco, seis anos, o grupo Carone sondou a possibilidade de adquirir o estádio do Sumaré, mais conhecido como campo do Estrela. Durante almoço num restaurante da Avenida Beira-Rio, o empresário Wiliam Carone Júnior manifestou junto ao então prefeito Carlos Casteglione o interesse pelo Sumaré. O time do Estrela enfrentava outro adversário, um enorme passivo trabalhista, e sua equipe andava em baixa, o campo praticamente desativado. E como o grupo interessado na compra se propunha a construir um novo estádio, em outro lugar, seria uma boa jogada para os dois lados, não?

A reação do prefeito foi um perfeito bate-pronto de jogador: “Sugiro buscar outra área, não se pode vender um patrimônio histórico como o campo do Estrela”, e a conversa tomou outro rumo, com o empresário sendo informado das alternativas que poderiam comportar seu empreendimento, sem mexer com o sentimento dos bairristas cachoeirenses. Pena que não tenha sido esse o entendimento, décadas antes, quando uma cooperativa de laticínios comprou o também tradicional campo de futebol do Leopoldina, no bairro Basílio Pimenta, e ali instalou sua fábrica. No lugar das jogadas de efeito, leite pasteurizado.

Resta agora saber até quando o Campo do Estrela, instalado em área cobiçada, resistirá ao assédio imobiliário, numa época em que quase ninguém liga para a memória arquitetônica e patrimonial. Quantos cinemas viraram templos religiosos, quantos imóveis históricos tombaram para dar lugar a redes de farmácia padronizadas ou prédios espelhados, todos iguais, sem qualquer traço de identidade?

Há muito tempo nossas cidades, pressionadas pelo vertiginoso aumento da população urbana e da violência, restringem cada vez mais os espaços abertos para jogos de rua e atividades de lazer. Frequentar parque público, a qualquer hora, é atividade de risco. Comprime-se de tudo em condomínios e clubes cercados, muros eletrificados, vigiados por câmeras, cães e tranqueira eletrônica. Tudo em meio à paranóia coletiva que só aumenta quando se vê cenas como o recente registro da empresária de Vila Velha morta, dentro do carro, atingida por vergalhão arremessado por um morador de rua. Nas vias, o sinal anda cada vez mais fechado.

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