NÃO SERÍAMOS NÓS DEFICIENTES?

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Pela primeira vez, enfrento uma dificuldade em começar a escrever essa coluna. É tanta coisa pra por no papel que não sei como colocar, tipo declaração de amor, você só sente. Creio muito que nada é por acaso, nem pelo bem nem pelo mal, tudo faz parte de um todo, muito embora isso não nos isente dos caminhos e escolhas que tomamos e fazemos.

Dia 3 foi o dia internacional do deficiente físico, que eu particularmente nem sabia que existia. O Pedro Motta Louro me procurou na internet e pediu para abordar mais sobre a inclusão. Pedro é um cadeirante sorridente que estudou comigo no ensino fundamental, mas nunca perdemos a amizade ou o contato.

Eis que eu rolando os “stories”, vi que a Rosi Gouveia repostou o texto do Pedro pelo instagram da Luisa Pitanga, que eu conheci pelas fotos dos meus amigos Wilson Ferreira e Rafael Duarte, e a convidei para participar também. Marcamos um café assim, de um dia pro outro na padaria pra que pudéssemos montar essa coluna.

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Para iniciar, a privação da mobilidade começa lá atrás, quando ainda se é criança. Tanto o Pedro quanto a Luisa me contaram que não participavam do momento mais esperado por nós quando crianças, o recreio. A escola que estudavam não tinha acessibilidade, e não permitia que em pouco tempo eles descessem e subissem.

Para a Luisa, isso gerou um distanciamento social tão grande, que ela mudou de escola. Hoje, em uma escola muito mais acessível, a Luisa não é mais “deficiente”, ela está totalmente integrada aos amigos, o que gerou confiança para fazer as fotos de 15 anos. “Se não fossem os meus amigos, eu não frequentaria as festas de 15 anos, pois a pista de dança sempre tem degraus, o acesso aos salões também”, me contou.

Como sempre falamos de inclusão, questionei aos dois o que era, de fato, se sentir incluso pra eles. Para a Luisa: “se sentir parte”. A falta de locomoção pra ela fez com que ela própria se excluísse na escola antiga, não conseguiu sentir o acolhimento que tem hoje na nova escola. E essa mudança gerou empoderamento. “Até para comprar meu material escolar, eu nunca fui. Os corredores são estreitos, o que me impossibilita de transitar”. Talvez você não entenda, mas mulheres nunca tiverem maturidade para papelaria. Fazer compras de material escolar era um dos grandes momentos do ano aguardado por todas. Percebe que é muito além de “acessibilidade?”

Para o Pedro, estar incluso é poder fazer as coisas sozinhos. Pense você, na autonomia adulta, ter que depender de alguém para te ajudar em tudo dentro da sua rotina? Já pensou em como seria se você ficasse um dia, só um, em uma cadeira de rodas? A resposta dele me fez perceber como que não imaginamos o que o outro passa, vive e convive. TUDO, o tempo TODO é um desafio. É um ser humano “normal” que usa o banheiro do deficiente, porque não pode esperar o que é pra ele desocupar.

A vaga de deficiente então faz TODA a diferença para a locomoção deles. TODA. Mas está quase sempre ocupada por alguém sem cartão no carro, subtendo que não é um deficiente, só alguém que não quer rodar um pouco mais, pagar um estacionamento, ou entender que seus cinco minutos não é melhor que o de ninguém.

Eles me apontaram uma observação: já reparou que você não vê com frequência deficientes nas ruas? Contaram-me que os amigos que são como eles têm desanimo de sair, dá muito trabalho.

“Uma das coisas que percebo é a falsa inclusão. Muitas vezes vou à busca de um emprego para deficientes e não há a contratação pela capacidade profissional, e sim por àquele que dá ‘menos trabalho’ para a empresa. Um cadeirante como eu que precisa de um banheiro maior, portas e corredores mais amplos, traz mais mudanças estruturais do que um que pode se locomover. Já ouvi algumas vezes que eu era o mais apto para o cargo disponível, no entanto, a empresa precisaria de modificações e não poderia fazê-las agora”, conta Pedro. Leia esse parágrafo mais de uma vez. Se isso te comove, bem vindo ao time.

Minha amiga Carla Moura me mandou o questionamento que tornei título “O que dói e limita o deficiente não é sua condição, a falta de acessibilidade que o limita, que impõe aprisionamento. Muitas vezes ele nem se dá conta e vive tão bem com sua condição que quando se depara com o limite que se percebe DEFICIENTE. Aí me pego pensando no termo e sinceramente chego à conclusão que nós que somos. Somos deficientes de tudo, de amor, de empatia com o próximo. Como sempre o ser humano complicando o descomplicado.” E não é bem isso? Não seríamos nós os deficientes?

Essa comoção me gerou uma inquietação irritante. Precisamos fazer algo, e já. Precisamos praticar a empatia, e isso você só consegue se quiser entender o que vive o outro. E se você entende você se conscientiza e quer fazer diferente. E podemos. E vamos. Hoje, eles precisam de voz. Para que nesse primeiro momento você entenda bem de perto o que eles passam, toda primeira semana do mês terá um relato pessoal dos dois por aqui, na minha coluna. Eles contarão o que vivem ou que já viveram e que bem entenderem que merece ser compartilhado.

Nasce aqui o projeto Mova-se. Mova-se você em prol do outro. Mova-se eu. Movam-se nós. Todos.

Cada compra e venda desenvolve uma cidade, que num todo faz o mercado imobiliário. E não pode ser só sobre comprar e vender, mas auxiliar nossa cidade num desenvolvimento sustentável e pra todos. O objetivo do corretor de imóveis é, no fim das contas, desenvolver cidades.

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