Nada como uma boa briga... interna

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Já me chamaram de anti-social, com hífen ainda porque antiga a delicadeza. Esquisito e chato também. Complicado, sempre. O legal é que gosto de receber críticas, quando realmente críticas e mesmo que não pareça no primeiro momento. Explico. A cada vez que tenho a oportunidade de rever formas de relacionamento eu aproveito. Brigas internas explodem entre o eu de antes e o eu que não sei qual será, já que depende do resultado dos embates. Tudo passa a ser questionado e pesado. Sei que a percepção dos outros é somente dos outros, mas vai que há razões sérias para as críticas?

Buscar o melhor de mim, naquilo que julgo ser o melhor realmente, é meu objetivo. Meio egoísta, talvez, mas qual o outro parâmetro que eu possa utilizar com tantas informações sobre tudo? Todos me são referências em muitas coisas das quais procuro captar o que soma e, tendo sucesso, incorporar aos meus modos, lembrando que minha reflexão se dá sobre o eu dos relacionamentos e tão somente.

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Ainda assim, é importante que quem chegou até aqui saiba que não acredito em duas ou mais formas distintas e separadas, a primeira sendo essa externa sobre a qual escrevo e outra a que contém venenos e poções, monstros e demônios trancafiados de tudo e todos. Nossos relacionamentos são construídos sobre o que somos, com os devidos filtros sociais possíveis e permeados dos sentimentos de cada relação. A distinção de um eu e outro eu se dá porque o que pensamos muda o que fazemos, mesmo que não estejamos atentos.

Nessas brigas não vou entrar no mérito da idade contada em anos, mas do tempo como conselheiro, daqueles bons quando se deixa que seja. Aquele que permite pensar sobre o que acontece, pesar e separar o que merece ser retido e incorporar aos pensamentos que seguem. Mudar de ideia sobre montes de coisas é pura consequência dessa construção intimista e até dolorosa, quando o conforto é sentenciado à morte pelo que virá depois da ideia abandonada.

Aqui, quando ideias são abandonadas, surgem desafios e brigas interessantes. Amizades podem ir pelo ralo, irão e foram. Algumas eram amizades condicionadas a comportamentos de identificação, situação. Não eram aquelas que sobrevivem às tempestades e que são sempre pouquíssimas. As mais afetadas são as que a gente coletou e guarda lembranças, dos lugares por onde passamos e onde trabalhamos ou estudamos. Chamo essas de circunstanciais.

Nas amizades em parte amarradas por convicções pessoais, temos as ocupadas por longas discussões filosóficas, religiosas, políticas e outros temas empolgantes que nunca enjoam. Essas, riquíssimas porque tem o poder de impulsionar nosso amadurecimento (porque positivo, se negativo seria apodrecimento), só avançam quando presente o respeito incondicional diante dos impasses. Bobo exemplo de impasse é quando seu amigo de igreja passa a manifestar sua fé em outra. Mantida a boa conversa e respeito, crescem os dois.

O mesmo vale para as convicções ideológicas. Durante décadas admirei e defendi ideologias de esquerda. Foram boas brigas, daquelas que citei como sendo excelentes oportunidades de avançar. As crenças são reforçadas, abaladas, buriladas ou simplesmente destruídas nessas batalhas internas. E, depois de quinze anos, avançar. Foram sonhos roubados sem que eu percebesse, trabalho e suor. Foi necessário ver em noticiários aquilo que no íntimo eu sentia e não queria acreditar. Uma desintoxicação lenta se iniciou em paralelo às brigas e há pouco mais de um ano chegou ao fim, faltando um arremate ou outro para depois. Cicatrizes enormes ficaram desta vez, algumas amizades se distanciaram, outras virão.

Como próprio da natureza, ciclos se reiniciam e espaços se abrirão para as próximas contendas.

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