A falsa inclusão do mundo real

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Durante muitos dias pensei no que dizer aqui para dar a dimensão do que é ser deficiente em Cachoeiro. Vou começar contando um fato que aconteceu comigo, depois explico o porquê de contá-lo.

Há uns 4 anos, eu estagiava em um escritório de advocacia e, em meio a correria de horário de almoço, vi que um dos pneus da minha cadeira havia acabado de furar. Era por volta de meio-dia e estava o calor habitual e infernal de sempre. Como eu já estava perto do escritório, resolvi voltar para lá. O ar condicionado me faria pensar melhor no que fazer. No meio do trajeto eu percebo que um rapaz me olha e vem ao meu encontro com um olhar meio incomum. Pensei comigo: “não é possivel que serei assaltado, que dia!”. Ao chegar até mim o rapaz disse: “boa tarde, posso lhe dar um abraço?”. Meio sem entender o que estava acontecendo, eu aceitei e no fim do abraço ele me disse: “hoje eu acordei cedo e vinha reclamando por estar tendo um dia ruim… ver você passar por essa dificuldade com um sorriso no rosto foi uma resposta de Deus pra mim”. O rapaz então me acompanhou até o escritório e eu nunca mais o vi.

O que eu quero dizer com isso? Nem todo olhar significa julgamento ou reprovação. Temos o poder de impactar positivamente a vida das pessoas. Ser um deficiente ativo em Cachoeiro ainda é visto como algo extraordinário, fora do comum, porque muitos de nós ainda não nos “arriscamos”. Por mais que eu tenha gostado muito da atitude do rapaz, o ideal seria que não fosse rara a cena que ele viu, deveria ser corriqueiro ver deficientes exercendo várias atividades.

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Num mundo ideal, a inclusão se assemelharia a uma porta aberta, onde quem está lá dentro me convida pra entrar e me dá todas as condições necessárias para que eu fique à vontade. No mundo real, essa porta ainda está fechada e é meu papel bater nela até que ela se abra, mesmo sabendo que lá dentro existem mil obstáculos. Uma conquista de cada vez.

Aos que ainda relutam em sair de casa, saibam que tudo que é novo desperta o interesse e os olhares das pessoas, mas na segunda ou terceira semana você deixa de ser novidade e passa a ser parte da paisagem, como “apenas mais um vaso novo na sala”, é nesse momento que a inclusão é obtida. Se a inclusão não nos é dada, é fundamental que lutemos por ela.

Pedro Pianes Motta Louro, 26 anos, Bacharel em Direito.

O projeto Mova-se tem a intenção de mostrar a rotina de pessoas com deficiência, para mostrar a realidade que poucos vêem, mas que pode ser mudada com a ajuda de todos. Quer fazer parte do projeto? Envie um contato para [email protected]

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