Montanha russa da virada

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É melhor ser alegre do que triste, já cantarolava o poeta-diplomata Vinícius de Moraes, embora também haja controvérsias a respeito. Dependendo da situação, a alegria, em vez de um estado de espírito elevado, pode significar alienação, distanciamento da realidade. Todos conhecem aquela historinha do otimista que cai do 12º andar e, ali pela altura do sexto, grita: “Até aqui, tudo bem…”. Já os pessimistas costumam carregar nas tintas e enxergam o mundo por um prisma em preto e branco. Há quem diga que os pessimistas não prosperam justamente por causa do eterno derrotismo, da carga negativa que transmitem.

Então, o caminho parece estar no meio termo, difícil de ser alcançado nesta época do ano quando somos submetidos a uma montanha russa de sentimentos e de informações que vão de alto a baixo em fração de segundos. Nos últimos dias, a mídia reverbera, além das mensagens natalinas e de virada de ano, as inevitáveis retrospectivas. E tome montanha russa: logo após âncora do telejornal garantir que a economia está sendo retomada e que 2018 será um ano melhor, surgem na tela imagens da grande invasão de sacoleiros brasileiros atravessando a ponte que leva ao Paraguai. Então, nosso destino será virar um imenso Paraguai?

O governo Temer se esforça para garantir que estão sendo reabertas vagas no mercado de trabalho, mas além da camelotagem, o que também prospera a olhos vistos são os motoristas de Uber e de transporte clandestino. Já as mensagens de final de ano repetem velhos chavões e antigas músicas, e neste terreno, a grande “novidade” é o fenômeno Anitta, aquela que virou “revolucionária” por exaltar a celulite. A propósito, o guitarrista Lulu Santos – que acabou ficando mais conhecido das novas gerações como jurado desses programas de TV que se propõem a revelar talentos, mas não passam de atrações em busca de audiência – definiu que a música brasileira voltou à “fase anal”. Anitta comprova isso. Performática e midiática ao extremo, só falta ela aprender a cantar.

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Ainda no terreno das mensagens de virada de ano, o capixaba está sendo brindado com um primor de deboche veiculado pelo institucional da Eco-101, o consórcio encarregado de duplicar a nossa BR-101. Surgem nas telas expressões de pessoas preocupadas com a condução do veículo, dando dicas de segurança, evitar bebida, etc. É por aí, mas o papel da Eco 101 é duplicar a rodovia para a qual cobra pedágio  desde 2014, e não ficar fazendo campanha educativa. No lugar de mensagens, o que os motoristas querem mesmo é que a Eco 101 cumpra sua função para então, sim, circular com mais segurança.

E pode ser que a coisa agora comece a andar de fato, depois que o bloco de empresas capixabas deixou o consórcio. Onde todo mundo mete a colher, já se sabe… No afã de ganhar dinheiro, empresários locais acabaram entrando de gaiato num caminhão desgovernado. Um exemplo sinistro: no dia 22 de junho deste ano, um ônibus da Águia Branca, empresa que integrava o consórcio Eco-101, foi envolvido num acidente na BR-101 quando morreram 22 passageiros, além de vários feridos. Não deu nem para reclamar com o bispo.

Ainda nesse clima de virada, a TV Globo aumentou a estatística dos desempregados demitindo o apresentador William Waack, acusado de racismo. O referido apresentador sempre primou por outra faceta, o reacionarismo extremado capaz de distorcer fatos históricos. O ex-vereador e radialista capixaba Namy Chequer costuma chamá-lo de “lombrosiano”, que vem a ser um delinquente nato, e o seu desfecho na emissora global, de certa forma, confirmou isso. Como tem admiradores e a escalada da extrema direita avança, não deverá ficar na rua da amargura. Aliás, seria assessor perfeito para a campanha do Bolsonaro, já que têm muitas afinidades.

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