Meu rio chamado saudade

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Ando muito cansado do peso da minha cabeça. Tenho pensado todo dia em parar e dizer não, mas, acomodado, me calo contemplando o cotidiano que não merece de mim tanto esforço. Romper com o previsível trajeto do rio morto que nos traga é um alto preço. E nem sempre a vida merece de nós tamanho sacrifício, afinal, não sairemos vivos dela.

Por isso repouso meu corpo sobre lembranças e tenho saudades de um outro tempo. De onde jamais deveria ter saído, que é lá do meu velho sertão cheio de rolinhas, frutas e pés de napiê, olho o mundo. Europa, França e Bahia não cabem o meu sertão porque nele está toda minha felicidade sem volta.

Tenho saudade das caçadas de preás. Das pescarias de rede. Dos camarões do rio Muqui. De suas areias cor de ouro que lhe inundam o fundo do leito. Meu pai construiu nossa casa com as areias do rio Muqui, talvez daí goste tanto dele. Suas areias dormiam comigo nas paredes. Moravam dentro de mim. As areias da minha vida são do rio Muqui. Nelas edifiquei meu mundo e construí castelos imaginários para onde levei as professoras da minha infância.

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Dia desses estive lá olhando o rio. Continua correndo parado sem saber pra qual destino. Mais estreito, desce rápido, querendo chegar logo. Tem medo do homem. Medo da sede do progresso que é capaz de beber futuros e secar esperanças.

Lembro bem. Quando estava vazio, sentávamos no meio dele. E ficávamos ali, quietos, sobre suas areias, com a água passando bem devagar sobre nós. Eu e os outros ainda não éramos neuróticos. E quando não se é importunado pelos problemas do mundo pode-se perder horas, quieto, dentro de um rio e olhá-lo descer. Sem pensar em mais nada. Vez em quando vinha uma cobra escorrendo suavemente por cima das águas. Passava em silêncio perto de nós. Harmonia total.

Nas épocas de cheia é que era bom! Sabe como a gente atravessava? Segurava no rabo das vacas e ia deslizando por sobre as águas. Surfistas da felicidade. Êta coisa boa!

Nunca mais atravessei um rio pendurado no rabo de uma vaca. Ele ainda esta lá. As vacas também. Eu não. Fiz um caminho inverso subindo suas águas, num trajeto infeliz dos homens grandes sugados pelo rio seco da desesperança. Não dá pra voltar. A não ser que se rompa com a mão do tempo o elo com o presente e eu regresse ao passado dependurado no rabo de uma saudade.

Difícil regresso! Quanto mais longe da terra e do rio de sua infância, tanto mais longe de Deus. Por isso, amigo, se ainda puder, amarre seus sonhos numa estrela e atravesse o rio da saudade no rabo de uma vaca. E você verá o que é felicidade!

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“Contemplo o rio que corre parado / E a dançarina de pedra que evolui / Completamente, sem metas, sentado / Não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui / A mente quer ser, mas querendo erra / Pois só sem desejos é que se vive o agora” – Ipê (Belchior)

 

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