Mais do que flores, queremos igualdade

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Tem fatos do nosso cotidiano que são tão comuns e poderiam passar desapercebidos, mas ficam, ali, remoendo nossa lembrança e nos fazem refletir muito mais do que um livro ou horas ouvindo uma palestra. Na minha vida guardo muitas situações assim. Toda vez que se fala da essência do Dia Internacional da Mulher lembro, por exemplo, de uma situação que vi quando trabalhei em uma grande empresa…

Por alguns meses, tive a honra de sentar ao lado de uma mulher jovem e muito inteligente, simpática, tratava todos da mesma maneira e tinha uma humildade inspiradora. Para ela não tinha tempo ruim e, se tivesse, ela fazia piada com aquilo. Mas, lembro de ter a visto realmente brava em uma ocasião. Era o Dia da Mulher e a empresa deixou uma rosa branca na mesa de cada uma. Todas chegaram e gostaram da lembrança, inclusive eu. Mas ela, não. Pegou aquela rosa e falou que não fazia questão nenhuma de recebê-la, deixou a de lado e disse que, quem a quisesse, podia pegar. Quando perguntaram a razão que a fazia recusar o presente, ela justificou dizendo que queria ser reconhecida por sua sabedoria e não com alguém que se contenta com uma rosa, como o único agrado que pode ter.

Uma rosa valeu mais que mil palavras…

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Por muito tempo eu fiquei tentando entender aquela atitude. Eu tinha ficado super feliz com a rosa e com um presente no meu dia, até que tudo fez sentido. Poucas horas depois, recebemos um e-mail com uma propaganda dizendo que uma marca oferecia um presente especial para o Dia das Mulheres, a palestra gratuita sobre “como atingir o peso ideal”. Ela, irada, falou: “É disso que estou falando… Por que não nos oferecem uma formação sobre negócios? Sobre independência financeira? Por que só presentes relacionados a casa, a beleza…Duvido que com os homens seria assim!”. Todas concordaram e não demorou muito para gente, com uma simples pesquisa, perceber que as promoções de eletrodomésticos também estavam “bombando” nesse dia.

A questão da rosa iria além do simples presente. Não é desagradável presentear a mulher que você ama e admira no dia de hoje, mandar uma mensagem para aquela amiga que tanto faz por você ou lembrar sua filha de como ela é especial nesse mundo, não, não é isso. O problema é que não podemos nos limitar a isso. São as atitudes durante todo o ano que fazem realmente diferença. Nos preocupamos (e eu me coloco nisso), durante 365 dias em como devemos ter o corpo bonito, sofremos com desilusões amorosas, com pessoas que nos tratam mal, com sobrecargas, com um ambiente de trabalho que não nos valoriza e vemos colegas sendo espancadas todos os dias, sofrendo caladas, porque não são aparadas por um sistema judiciário realmente eficaz.

Portanto, homem, não diga a mulher o quanto ela é linda hoje, diga ela o quanto ela é forte. Não dê uma rosa, uma roupa nova e saia correndo para seus compromissos. Valorizamos muito mais quando você senta para conversar conosco (assim como tantas vezes fazemos com vocês) para perguntar em que pode nos ajudar. Não incentive a empresa a dar presentes e mimos hoje, pergunte como pode mudar a disparidade de salários de mulheres que, ocupam o mesmo cargo que o seu, e ganham muito menos. Quer promover um evento dedicado a mulheres? Mostre sobre economia, política, novos negócios, tecnologias, não perca tempo nos mostrando como podemos emagrecer rápido, a indústria da beleza já enche nossas cabeças com isso todos os dias. E, por fim, pode nos dar uma rosa, mas que ela venha cheia de respeito e companheirismo em nossa luta.

 

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