Magno Malta, o fantástico sobrevivente

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Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
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Eu trabalhava no estúdio Câmera Um, com o saudoso e brilhante fotógrafo Cesar Romero, no centro de Cachoeiro de Itapemirim, galeria do Renê (que existe até hoje). Um dia bate lá, pelos idos dos anos 90, um cidadão desconhecido querendo fazer fotos para um disco (LP) de músicas gospel que ele iria lançar. Era Magno Malta.

Não me lembro se já era vereador em Cachoeiro ou se seria depois. Fato é que de lá para cá, entre uma música e outra, Magno Malta (PR) construiu carreira tão meteórica quanto inquestionável do ponto de vista do pragmatismo político. De vereador a deputado estadual, de estadual a federal, e de federal a senador. Um fenômeno eleitoral.

Magno foi vereador na legislatura em que Zé Tasso (MDB) foi prefeito. Zé Tasso rompeu com o ex-prefeito Theodorico Ferraço (DEM), seu mentor político, que, por sua vez, passou a persegui-lo. Cachoeiro virou uma praça de guerra, entre o prefeito e o ex-prefeito. Alheio a essa briga, Magno construiu carreira solo e se tornou deputado.

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Na Assembleia Legislativa da Era José Carlos Gratz e de tantas outras águias políticas, Magno Malta também sobreviveu. Eleito deputado federal tomou para si temas de relevância nacional que lhe projetaram. Virou senador duas vezes, e por fim, neste ano, perdeu seu mandato.

Muito do que se atribui à derrota de Magno é o fato de não ter sido um senador presente nas demandas diárias dos municípios capixabas. Afeito a temas nacionais, distanciou-se das bases, sendo o antagônico da sua colega Rose de Freitas, senadora conhecida por apoiar pautas municipais.

Certa ou não, o fato é que a receita de Magno faz dele um sobrevivente fantástico. Trata-se de um político que tirou seu umbigo do balcão capixaba e o encostou nas grandes lideranças nacionais, sobrevivendo aos caprichos dos caciques estaduais. Por exemplo, não é alinhado com o governador Paulo Hartung (MDB) e nem com o futuro governador Renato Casagrande (PSB). Assim como não foi, ou foi apenas por alguns momentos, com Ferraço, Tasso, Gratz e outros.

A atual peripécia política de Magno é ser cotadíssimo para um futuro ministério da República do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). É isso! Enquanto a maior parte do eleitorado capixaba optou por tirá-lo da cena política, ele ressurge das cinzas pelas mãos de um grande ator nacional. Não podendo esquecer que já tinha sido convidado também para ser vice-presidente na mesma chapa.

E antes que os críticos mirem no Bolsonaro, atribuindo a ele uma bela derrapada administrativa quando faz a opção de levar Magno, não devem esquecer também de criticar os gênios Lula e Dilma, ambos igualmente seduzidos pela lábia desse baiano que bebeu como ninguém as águas políticas de Cachoeiro. Se a foto dele com o novo presidente incomoda, é preciso apagar do Google as dele com os dois petistas também.

Não se chega aonde Magno Malta chegou sem opositores, adversários e críticos. Mas só se chega aonde chegou com aliados fortes. E o ainda senador os tem. Roubou a cena na primeira entrevista coletiva de Bolsonaro, não como papagaio de pirata, como divulgado em redes sociais, mas como um aliado importante ao qual o novo presidente tem gratidão e confiança.

Será ministro, ou se será bom ministro, o tempo e o trabalho julgarão. Mas nesse momento querer diminuir o tamanho do seu prestígio político é estéril porque os fatos e sua trajetória falam mais alto por si, e falam a ponto de silenciar com coerência aqueles que insistem no tema por mero capricho político, birra eleitoral ou questões pessoais.

Escrever sobre a carreira política de Magno, não é concordar com a carreira política dele. É apenas ser justo. Uma coisa é criticar seus mandatos, ou mesmo sua postura pessoal. A outra é fazer uma avaliação fria da sua competência política para chegar aonde chegou, com um pragmatismo de dar inveja a qualquer velha raposa capixaba. É um sobrevivente vitorioso dessa máquina de sugar gente chamado política.

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“Entre o bem e o mal a linha é tênue meu bem / Entre o amor e o ódio a linha é tênue também / Quando o desprezo a gente muito preza / Na vera o que despreza é o que se dá valor / Falta descobrir a qual desses dois lados convém / Sua tremenda energia para tanto desdém / Ou me odeia descaradamente / Ou disfarçadamente me tem amor “ – Linha Tênue (Maria Gadú)

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