Fora dos trilhos

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“Um exemplo próximo de como andamos na contramão nos transportes parte de algumas lideranças do município de Vargem Alta, que pedem a retirada dos trilhos da área urbana, para dar lugar aos carros, buzinas, flanelinhas, rotativo, etc.”

Depois que entramos na encruzilhada dos caminhoneiros, talvez seja o momento de realmente começar a pensar num modal diferente daquele sinalizado por Juscelino Kubistchek e que resultou numa extrema dependência do transporte rodoviário, seus múltiplos tentáculos, interesses e riscos. Um exemplo próximo de como andamos na contramão nos transportes parte de algumas lideranças do município de Vargem Alta, que pedem a retirada dos trilhos da área urbana, para dar lugar aos carros, buzinas, flanelinhas, rotativo, etc. Reproduz em miniatura o modelo da dependência rodoviária, isso num País de extensão continental, que pede modal de custo mais barato e seguro.

João Luiz Madureira Jr., da ONG Trilhas, lembra que ferrovia é o transporte limpo, e que em Vargem Alta os trilhos podem significar alternativa para um VLT, além do uso turístico e patrimônio cultural. Ou seja, em vez de somar, estão querendo arrancar uma infraestrutura já existente e que tantos gostariam de dispor para solucionar transporte de passageiros e cargas. Só a título de comparação, os japoneses, que possuem um dos mais modernos sistemas de transportes do mundo, transformaram Tóquio na “cidade dos trilhos”, e isso já diz tudo.

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Em tempo: se insistir na retirada dos trilhos, será outro erro histórico de Vargem Alta, município de alto potencial para o agroturismo, com muita água e verde, mas que entrou numa extrema dependência das rochas ornamentais. Hoje, o município é altamente impactado pelos resíduos, barulho, trânsito de carretas e acidentes. Gera renda? Gera, contudo o passivo ambiental e social é extremamente elevado.

E por que não investimos efetivamente em ferrovias? Há quanto tempo se ouve falar no projeto da litorânea entre Espírito Santo-Rio de Janeiro? No entanto, essa ferrovia não saiu do papel até agora. Além da pressão contrária feita pelo segmento rodoviário, as ferrovias descarrilam por outros motivos: alto custo de instalação, a obra é demorada e seus dividendos surgem em prazos longos. Nada disso interessa aos políticos, pois esses precisam apresentar resultados a cada quatro anos.

E existem outros motivos, como a influência política e econômica. No caso da ferrovia litorânea, a última conversa era que seria construída pela Vale viabilizando, dessa forma, a ligação entre Vitória e Presidente Kennedy, onde se cogita a instalação de um mega porto em sociedade com holandeses. Porém, o lobby poderoso do agronegócio ameaça desviar esses trilhos para a região Centro-Oeste do País deixando a nossa bancada federal com aquela sensação de que o trem está atrasado ou já passou.

Antes de todo rolo atual, bom mesmo era ter um caminhão. Até Roberto Carlos pegou uma carona. No início da paralisação, o rei chegou a declarar seu apoio ao movimento durante um show. Mas depois a gente viu que era somente uma colocação de efeito e gancho para ele cantar sua música sobre os caminhoneiros. Nem se tocou que à beira do caminho havia um locaute dos empresários. E prevaleceu a palavra de ordem na sua corte: o faturamento, ao contrário, dos caminhoneiros, não pode parar.

Por último, o movimento foi contaminado por extremistas. É impressionante ver caminhoneiros e infiltrados, além de alguns desavisados, inocentes ou desmemoriados, pedindo intervenção militar. Isso é que é clamar por um histórico andar de marcha a ré. Nas quatro últimas décadas, avançamos pela via democrática, entre altos e baixos, reverberando o bordão “ditadura, nunca mais”, apontando  equívocos e crueldades do regime militar,  até chegar onde estamos. Evoluímos? Em parte, sim. Nossas instituições, com erros e acertos, evoluíram, a economia também. Porém a baixa educação de todos esses anos, desde o Império à República, agora escancara nossa penúria. E nos coloca nesta nova encruzilhada.

Pensando bem, a razão está com os mineiros. Se antes bom mesmo era ter um caminhão para andar por este País, agora a saída é um trem. A dependência extrema, em qualquer situação, não leva a nada. Pior, costuma levar a retrocesso. No mais, ainda pisca uma postagem feita nas redes sociais, no auge da paralisação: “Deixem passar pelo menos o caminhão do rivotril”.

 

 

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