E o mundo não se acabou

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“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar 
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole 

Pensei que o mundo ia se acabar 
E fui tratando de me despedir…” (Assis Valente)

Às vésperas da tensa campanha presidencial, o dia do segundo turno chegou a ser aguardado por alguns eleitores como o “mais longo dos dias”, coisa assim de título de cinema, pois havia no ar um clima de indefinição. Porém, abertas as urnas, os votos confirmaram a vantagem média de 10% pró- Bolsonaro, conforme as últimas pesquisas de institutos confiáveis. Sim, em meio a tantos fake news por aí, ainda existem pesquisas sérias.

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Fechada as apurações, logo surge o presidente eleito se declarando “escravo da Constituição”, e tendo ao seu lado um afro retinto, não por acaso colocado ali. Bolsonaro fez um discurso apaziguador. No dia seguinte, a poderosa Globo colocou Bolsonaro no ar, no Jornal Nacional, meio assim querendo recuperar a hegemonia quebrada pelas redes sociais. Acabou que o âncora, William Booner – que sempre soa deslocado quando não tem pela frente um teleprompter – tentou dirigir a conversa para obter declarações republicanas de Bolsonaro. Este seguiu o roteiro em parte, até recuperar seu estilo “boi-bumbá“, e despejou farpas contra o jornal Folha de São Paulo, que é associado da Globo. Ficou no ar um clima de barata voa.

O fato é que a partir de agora nada será como antes na relação da grande mídia com o poder Executivo. Acostumados a ditar a agenda de governantes, os grandes grupos de televisão e jornais tentam sobreviver duramente numa fase de transição das comunicações para a plataforma digital. E a eleição de Bolsonaro, centralizada nas redes sociais, é a evidência mais notória de que já não é preciso seguir se sujeitando às regras, e custos, dos grandes grupos.  Em sua primeira declaração como eleito, Bolsonaro o fez por meio da rede digital. Nada mais sintomático do que isso.

Naturalmente, há o outro lado dessa moeda. Flertando ou não com grandes grupos que regem a comunicação tradicional, nas redes sociais Bolsonaro poderá criar a sua própria rede de informações e sem o risco de estar sujeito às matérias, digamos, indesejáveis. Pode não ser o melhor dos mundos, mas é este o mundo novo que a tecnologia proporciona. Até hoje, vale lembrar, o aparato de segurança pública existente, ainda analógico, não consegue lograr muito êxito em relação aos chamados crimes virtuais.

E quanto ao perfil homofóbico e racista do presidente eleito, aliados de Bolsonaro tratam de amenizar. Não passariam de manifestações feitas entre os mais íntimos, meio piada, a língua solta, nada de se levar muito a sério. O novo guru econômico do futuro governo, por exemplo, é conhecido como Posto Ipiranga. De resto, Bolsonaro leva a enorme vantagem de suceder a governo mequetrefe. O pouco que fizer poderá ser muito. E a escolha de Moro para a Justiça, em tese, parece arrefecer os temores de autoritarismo.

No bloco derrotado nas urnas, Haddad passou todo segundo turno sem nenhuma autocrítica ao PT. Pelo contrário, insistiu em visitar Lula preso e isso provocou desencanto em muitos que votavam no partido, embora não fossem petistas. Já no Maranhão, a família Sarney foi apeada do poder pelo PCdo B, quem diria. Embora a própria boca maldita maranhense já tenha sibilado que somente três coisas resistirão a uma hecatombe nuclear: baratas, Coca-Cola e a família…Sarney. Observe que, dependendo da região, você pode manter as baratas, o refrigerante, e trocar de família-desafeto.

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