Dos festivais à balada do Trevisan

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Sergio Sampaio
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Chego à redação e a pauta era o lançamento do livro do jornalista Luiz Trevisan, “Resumo da Balada”. Título sugestivo. Por se tratar do Trevisan, me fez lembrar os anos 1970, quando Cachoeiro de Itapemirim transpirava rebeldia, irreverência e resistência. Não sei se esses aspectos foram retratados no livro, mas vou acreditar que sim.

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Pois bem, volto ao passado de menino para reverenciar o Trevisan e mais uma turma que formava o chamado Grupo Novo: Hésio Melo Coelho, Aristides (Ari) Pereira, Verinha (do Elyan), os irmãos Martins -Estelemar, Vanda, Cleomar, Gorete e Beth, Ângela e Regina Herkenhoff, além do próprio Trevisan. Essa turma se reunia no solar dos Martins, no Aquidaban, para produzir boa música. De certa forma, foram os irresponsáveis pelos primórdios da minha formação cultural e política, quando nem sabia o que era isso.

Lembro-me daqueles Festivais da Canção de Cachoeiro, no Ginásio de Esportes do Nova Brasília. Aquilo fervilhava. A reboque do que acontecia no Brasil, com os festivais nacionais e internacionais das TVs Record e Tupi, os de Cachoeiro também despertavam paixões e torcidas inflamadas. Assim como a turma do Grupo Novo, Afonso Abreu, Sérgio Sampaio, José Lopes & Cia eram protagonistas naquelas noites em-cantadas.

É isso, o Tevisan me traz essas recordações. Tempo em que se ouvia a “Poeira” do Estelemar e podia-se cantar a “Menina” do Hésio, entre tantas outras. Casa lotada, arquibancadas cheias, faixas, cartazes, gritos histéricos, havia de tudo. Eu, ainda criança, observava aquelas coisas sem ter a dimensão do que acontecia. Estava sendo tragado por um processo histórico desenhado por uma juventude abusada e transviada.

Um dia fui ao mesmo ginásio, levado pelo tio Hesinho, o cantor e o mais novo dos Coelho da Dona Alba e Seu Basílio. Raul Seixas ia fazer o show de encerramento do Festival de 1973. Ainda um maluco beleza que começava a ganhar fama e público nos grandes centros. Ao fim da peleja musical, muita gente foi embora do ginásio. Então, pediram para a turma da arquibancada descer e assentar-se nas cadeiras da quadra, próximas ao palco.

O show pode até ter dado prejuízo à Casa do Estudante, que organizava os festivais. Mas, acompanhar Raul Seixas cantando de pertinho, sentado na mesma mesa – sim, ele desceu do palco – berrando “Guita” e colocando mosca na nossa sopa, foi demais. Minha cabeça girava. O que estaria acontecendo? O cara falava de Deus, de mosca, de aranhas e cobras com a mesma simplicidade de quem vai ao zoológico dar pipoca aos macacos. Estava 10 mil anos à nossa frente, isso sim.

Essa semana Trevisan volta a Cachoeiro com uma agenda menos sonora. Estarei lá na Casa dos Braga, na noitinha da quarta-feira, para dar-lhe um abraço e comprar o livro. Vou aproveitar e deixar à guarda dele alguns escritos e letras do Hésio, que ficaram com minha saudosa mãe. Acho que vai gostar. Depois, certamente, vamos sorver algo mais condizente com o título da obra.

Até!

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