DOMINGO EU SINTO FOME

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“… domingo é o dia que eu mais sinto fome, porque a cidade fica vazia. Agora, eu sinto fome todos os dias, porque a cidade está vazia …”

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Essa acusatória e comovente frase foi a resposta de um morador de rua de uma grande metrópole, quando entrevistado por um repórter que registrou as ruas desertas, consequência do isolamento social implementado em quase todo mundo, por causa da pandemia do novo coronavirus.

Não temos como calcular ou dimensionar exatamente o tamanho do estrago que esse vírus pode causar na economia e na saúde da população mundial, mas podemos sentir o tremor e ouvir o gemido de quem mais precisa. Milhões e milhões de esquecidos estão literalmente jogados nas enfeitadas praças, esperando o pior, a chegada da morte. Um curvado senhor com a face marcada pela vida, onde cada ruga que corta o seu envelhecido rosto, denunciou no horário nobre da televisão a nossa frieza e o nosso descaso com o próximo. Não bastasse a humilhação do abandono, agora os moradores de rua tem mais um fantasma para assombra-los nas gélidas noites, um terror a mais para quem tem menos.

Outra entrevista que gerou grande comoção, foi quando um outro morador de rua respondeu ao repórter sobre a realidade do isolamento social, assim: “ficar em casa, como assim? Você pode se isolar em seu lar, nós não temos como fazer isso, porque não temos onde morar”. Essas chocantes notícias promovem ou deveria promover um pavor sem precedentes em nós. Na verdade, deveria despertar em nós outro sentimento, vergonha. Isso mesmo, vergonha, a vergonha de não termos vergonha!

Em uma sociedade movida ao consumo o suficiente nunca é e será suficiente, ainda mais para uma camada opulenta, hipnotizada pela estética e refém da ambiciosa ostentação. Sim, estamos cada vez mais dementalizados e escravizados pela matéria, no qual o ideal de felicidade de muita gente é “ter” e “ter” para si, não importa o caminho, o meio e quem será atropelado na longa e transloucada corrida da ganância, o mais importante é ter sempre mais do que realmente se precisa, um envenenamento homeopático, porque tudo aquilo que está ou vai além do que precisamos, é veneno para o corpo e para a alma.

Essa filosofia estomacal e umbigocentrista tem uma forte ligação com a possessiva ideologia hedonista, que preconiza o prazer acima de tudo e de todos, irmanando o consumo com a desenfreada alucinação dos olhos, uma mistura altamente ufânica e egoísta. Essa regalosa estrada alarga a angústia daqueles que estão à margem do empoeirado chão, acimentando a sensibilidade dos atraiçoados andantes, pessoas que prazerosamente formam o epopeico exército de mercenários, comandados pelos mais lancinantes e malsinados delinquentes. Parece que a promoção do sofrimento alheio, é o incessante e apetecido orgasmo do presente século.

Enfim, essa breve reflexão tem o plural objetivo de ajudar-nos a desatrofiar a nossa cômoda consciência, mostrando que algumas situações consideradas por nós como problemas podem ser a saída e a solução para muitas pessoas. Isto mesmo, o nosso pouco pão é a simples cobiça daqueles que nada tem em suas migalhadas mesas, e o nosso inacabado teto é o sonho de quem se aquece unicamente com o Sol e se refresca com a solitária e serena Lua.

Ele, aquele maltratado senhor sente fome de pão todos os domingos, no entanto, muitos de nós consentimos e nos alimentamos com o pão da injustiça todos os dias!

Tudo indica que nos próximos dias estaremos entre a miséria e a grandeza. Alguns serão grandes, já outros serão apenas miseráveis.

Sejamos grandes,

Weverton Santiago

PS: Hedonismo é a doutrina filosófica que preceitua a busca excessiva do prazer como bem supremo. Esse termo do grego é formado pela palavra “hedon” (prazer ou desejo) junto ao sufixo “-ismo”, que significa doutrina, a doutrina do prazer.

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