DOIS BRASIS

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Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país, mas existem “dois Brasil”. O primeiro é o “Brasil Real”, que é bom e revela os melhores instintos. Já o segundo é o “Brasil Oficial”, o país caricato e burlesco.

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Essa emblemática crítica foi feita por Machado de Assis e nos transporta para uma realidade que perpassou a história. O Brasil Oficial e o Brasil Real estão aí, presentes e correntes de várias formas. Podemos vê-los claramente em lugares como o Rio de Janeiro, um Estado politicamente dividido, no qual os endinheirados vivem na requintada Zona Sul e os pobres se amontoam nos morros e nas estreitas comunidades da Zona Norte.

Contextualizando o pensamento machadiano, esses dois “Brasis” estão cada vez mais distantes. Basta uma simples leitura social para chegarmos a esse triste diagnóstico, ou uma sincera reflexão sobre a política e a sociedade. Infelizmente, a política continua com seus traços elitistas e protecionistas, onde a pobreza e o pobre são escondidos e negados. Por outro lado, boa parte da sociedade permanece insensível e incapaz de indignar-se com as gritantes injustiças e com a vergonhosa desigualdade.

Destarte, no meio desse insano duelo de “Brasis”, não conseguiremos avançar como nação e jamais seremos um povo, pois não temos uma paixão que nos move politicamente e um ideal capaz de estimular a unicidade social. Lembrando que o conceito unicista é bem diferente da conotação uniformista. O primeiro compreende e luta pela pluralidade, o segundo sustenta sua animalesca pretensão de ser único e absoluto. Vale ressaltar que quando abordamos o conceito de pobreza não estamos somente acusando a impregnada cultura da posse e a consciência do acúmulo, estamos denunciando a distorcida semântica sobre pobreza e riqueza, porque um país que produz ricos não sabe e nunca saberá o que é riqueza.

Portanto, o “Brasil Oficial” precisa descobrir o “Brasil Real”. Sim, a palavra chave é descoberta, os privilegiados precisam encontrar e reencontrar os desprezados e os marginalizados. O baronato brasileiro precisa tomar um banho de cultura urbana e frequentar as feiras populares deste país, conhecer a essência da rua do Ouvidor e o Camelódromo carioca, andar na povoada Região do Brás e na paulista 25 de Março, enxergar a afamada e capixaba Vila Rubim, a frenética Expedito Garcia e a movimentada Terra Vermelha.

Sem isso, nunca haverá um só Brasil e os encastelados continuarão de frente para o mar, virando as costas para o “Brasil Real”.

Dois Brasis significam nenhum Brasil,

Weverton Santiago

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