DIAS DE SANGUE

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Olhemos para as estrelas, elas receberam o tom da intimidadora agressão e da dogmatizada covardia! Observemos o céu, ele está cada vez mais encolhido e sombrio. Vejamos a Lua, ela está acinzentada e sem o seu teimoso brilho. Testemunhemos o Sol perdendo-se na imensidão do medo e sendo engolido pela presente desesperança!

Estamos vivendo o tempo da morte, onde a banalização da vida parece uma regra irrefutável. Matar agora não é mais um grave e subversivo comportamento, matar é um simples gesto de imposição ou de afirmação. É o baile da morte, a dança do sangue e a canção da malignidade que nos fizeram acostumar com o absurdo, com o terror e com todo tipo de facínoricidade! Nada mais nos choca, absolutamente nada, a nossa consciência e os seus porões estão defuntados e anestesiados!

Triste cenário, onde crianças e adultos convivem nesse mundo truculento e regado a torpida ameaça, a constante ameaça! Viver se torna uma tarefa dolorosa e muito complexa, pois morremos e matamos tudo e todos que colidem com as nossas escondidas enfermidades da alma. Daí, especialistas dão palpites, os sensos se perdem e a sociedade não esclarece e não reconhece sua deflagrada culpabilidade. Aliás, a nossa gravíssima insensibilidade nos leva para o caminho da frieza, onde nossos gélidos pés denunciam a fina camada de gelo que nos sustenta, pronta para romper-se a qualquer momento e tragar-nos para sempre!

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Assim, somos levados pelas fortes e avermelhadas correntezas do luto, pelo caudaloso rio da dor e pelo forte vento da lamentação! Vamos assistindo a perpetuação da reverenciada angústia, até que um dia, um dia desses de sangue, essa pavorosa senhora bate na nossa fragilizada e amedrontada porta! É bom que saibamos, quando a violência não tem alvo, todos são transformados em alvos da politizada e cada vez mais aceita brutalidade. Somos a causa e a consequência dessa fabricada anomalia social, onde o nosso egoísmo tornou-se o adubado ventre da crueldade, o paraíso dos homicidas e a eterna morada de toda sorte de delinquências e delinquentes!

Enfim, não adianta alimentar o temporal remorso e, muito menos esboçar o cultivado sentimentalismo, é preciso uma honesta e urgente reflexão sobre a vida, a escassa vida! É necessário uma reconstrução dos sentimentos e uma séria reconceituação daquilo que interpretamos como riqueza e pobreza. Também é fundamental um batismo de contentamento, um efetivo banho de simplicidade e uma reespiritualização do saber, o saber da vida, vida que trocamos pelas ilúcidas coleções de entulhos, os irrecicláveis lixos da existência!

Vamos, vamos derramando o barato sangue e vamos vivendo nossos dias, dias de sangue, até a última gota,

Weverton Santiago

PS: A música “SUNDAY BLOODY SUNDAY” é conhecida pela sua batida militarista, sua guitarra dura e pela harmonia melódica. Uma das músicas mais politizadas da Banda Irlandesa U2. Sua letra descreve o horror sentido por um sobrevivente do chamado “Conflito na Irlanda do Norte”, incidente conhecido como “DOMINGO SANGRENTO” em Derry, onde tropas britânicas atiraram e mataram covardemente manifestantes de direitos civis.

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