DEMOCRACIA QUALIFICADA

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Crédito: Agência Brasil
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Nos últimos anos os instrumentos participativos da democracia brasileira vem perdendo sua qualificação, mostrando que a sociedade ainda tem pouca familiaridade com o tema. Na verdade, a história do Brasil é recheada de golpes, de truculência e de comportamentos totalitários. Tirando o período da monarquia na figura de Dom Pedro II, onde tivemos quase seis décadas de estabilidade regencial, os demais eventos foram marcados por calculados traumas, constantes conspirações, criativas armações e muita violência.

Uma prova dessa incompreensão está no clamor de parte da população, pedindo a volta dos militares ao poder, ancorando-se no discurso que não existia corrupção e abuso durante esse regime obscuro, nababesco, árdego e contrário a qualquer movimento de liberdade. Este adulterado argumento é tão afabulante como a narrativa daqueles que desejavam ou desejam implementar outros sistemas ditatoriais camuflados de democracia e de inclusão política. Esses viés sistemais não tem compromisso algum com a transparência, com a socialização do saber e com o fortalecimento do processo republicano e das suas principais instituições. Uma rápida pesquisa ajudará qualquer insólito leitor a descobrir os disparates e os péssimos exemplos desses dois anacrônicos e tendenciosos polos.

Essas tensões ressuscitam a oportunista e apocalíptica interrogação sobre os sofríveis riscos dos pilares democráticos do Brasil. Sinceramente, não acredito que a democracia brasileira corre esse iminente risco, esse pronto sudário é estratégia de quem perdeu o posto da presidência da república. O que está sob risco é a qualidade da nossa democracia, sobretudo quando olhamos para o complexo universo de coptacão política, o famoso “toma lá, dá cá”, que nos últimos anos ganhou a puriosa conotação de “governabilidade”. Isso suscita uma forçosa pergunta para os nossos dias: POR QUE É TÃO DIFÍCIL RENOVAR OS QUADROS POLÍTICOS? Não desejo ser simplório e muito menos líquido, no entanto, uma das múltiplas respostas é a donata dificuldade que grande parte da sociedade tem em compreender a política, e essa falta de cognição é o ventre procriador de politiqueiros, setores cinicais, dependentes crônicos de políticos e não de políticas. Essa brutal e animalesca postura promove o “coletivo capamento” do indivíduo, negando a este um direito básico político, a autonomia do ser.

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Também é importante ler e interpretar o tempo em que vivemos, fora do núcleo das paixões políticas. Quando abordamos o tema “qualidade da democracia” estamos denunciando a escarificação e o empobrecimento da matéria, cada vez mais escrava da obviedade, submisso da redundância argumental e das perigosas e particulares sensações. Tudo isso pavimenta a nociva estrada das convicções que, geralmente se fecham em arquitetadas respostas, a partir de pressupostos deformados e apresentados como verdade absoluta. Especialmente, nessa era virtual, onde aquilo que é surreal vem asfixiando o que conhecemos como mundo real, ufanando vertiginosamente a idiossincrasia moderna ou pós-moderno. Tudo isso implica no grave atrofiamento social, aguça o crescimento anômalo-político e paralisa a maturidade política brasileira. Não vai demorar a chegar o dia em que a verdade perderá o seu valor existencial, visto que no campo dos poderes a verdade foi relativizada há muito tempo, na qual ela obedece as conveniências hermenêuticas dos vorazes protagonistas da tripartida república. As variações históricas podem e devem existir, porém a verdade é a própria existência, não se sujeitando ao medo de não existir, isto sim, é uma realidade absoluta.

Portanto, é necessário que os desejosos da tão sonhada “nova política” mostrem qual é a sistematização e o ponto de partida dessa ventilada remodelação política. Qual é o fundamento e a essência desse intrépido tema? É uma nova filosofia ou apenas mais uma onda sensacionalista? Acredito ser muito perigoso ostentar esse aparido elóquio, sem uma proposta palpável e sem direções próximas e claras. É preciso ter muita cautela para não morrer antes mesmo de nascer, comprometendo as novas gerações, tornando-as órfãos de políticas concretas e ausentes de soluções frucalescas e primárias. Historicamente, sabemos que a política nacional ainda não se encontrou e não formou uma transição segura para o porvir, mostrando que suas diretrizes gerenciais estão presas ao hoje, aos setores privados dominantes e aos grupos que almejam a perpetuação no poder. Ou seja, falta política para o amanhã, falta sensibilidade no fazer e sobra propaganda do agora. Quem paga e pagará essa miçangada soma? A jovial democracia brasileira que, gradativamente fica subordinada aos delírios partidários, ao fértil imaginário político e a insciência da sociedade, mirrando e consuetando debates sérios, aproveitáveis e altamente positivos para consolidação da importantíssima democracia do Brasil.

Enfim, esta gerundiosa e aveloriada conta está sendo saldada por todos nós, e este penurioso e caturrado caminho continuará sendo percorrido por longos anos, visto que ainda não existem definições rumais, tanto para a política e seus personagens, quanto para a indefinida democracia brasileira, a grande vítima de toda essa drástica e abstrusa política!

Remédio para democracia é qualificar seus pilares e capacitar seus personagens, ofertando a sociedade fórmulas tangíveis e comunicáveis para se aperfeiçoar a nossa jovem democracia,

Weverton Santiago

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