Cinco Linhas

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Acredito que os artigos generalistas já escritos, pelo menos os meus, não devem sobreviver depois da sexta linha ou do primeiro parágrafo. Quando trabalhava em banco e chegava jornal do sindicato eu recebia perguntas sobre o que ele continha, já que a maioria jogava fora ou guardava para nunca mais ser visto e sabiam que eu lia de tudo, até bulas de remédio. E olha que estamos na quinta linha e seguiremos adiante, ou pelo menos eu o farei.

A ausência do hábito de leitura não é recente (a “preguiça” em ler é recorrente há gerações). A mesma pessoa capaz de ler quatrocentos posts de aplicativo de mensagens não é capaz de ler as orelhas das capas de livros simplesmente porque a primeira o atrai e a outra não. Nem livros virtuais sobrevivem a esse fenômeno estranho que acomete algumas populações.

O empobrecimento cultural decorrente da falta de leitura, sejam artigos ou livros, periódicos ou bulas, provoca ausência de visão crítica com argumentos (porque cinco linhas não o fazem) e geram outro efeito ainda mais singular, a criação instantânea de debatedores craques em detonar qualquer posicionamento sobre qualquer assunto, com o agravante da mensagem normalmente ser passada com certa virulência, como se o que foi dito tão superficialmente (porque a mente é incapaz de produzir algo mais consistente) fosse a única verdade possível.

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Chega a ser cansativo, para não dizer desesperador, ler os comentários em redes sociais e aplicativos tão vazios que parecem ser resultado dos resquícios de um eco de algo que se leu ou ouviu rapidamente e se bastou. Pobre do país que se encontra com tal nível cultural (cultura geral, não a clássica que já seria pedir demais) e ainda se acha no direito de ser destaque mundial, um ufanismo sem sentido de cérebros como balões de parques.

Claro que temos exceções e temos referências mundiais em conhecimento, mas são raridades nesse oceano da coisa abaixo da média onde navegamos. Tenho certeza que dos leitores que chegaram até aqui alguns ainda confundirão opinião com insulto e/ou preconceito, e logo acharão uma etiqueta qualquer para me estampar a testa. Antes que pintem um alvo com minha fotografia, quero lembrar que somos mais de duzentos milhões em um país que elegeu para um cargo alguém que não escondia que não lia e outro que dizia para esquecerem o que já tinha escrito.

E ainda querem que sejamos escandinavos em direitos, deveres e comportamentos. Um em cada três brasileiros nunca comprou um livro, quase metade afirma não ler nem doado ou emprestado e isso em uma pesquisa, porque em outra chega a sete em cada dez, com a Bíblia e os didáticos aí incluídos. Esse retrato aborda somente livros lidos por inteiro, qualquer livro (dados de 2016 do Instituto Pró-Livro).

Como esperar que o comportamento comunicativo seja diferente do que temos apresentado? A riqueza de um país ou sua pobreza não são fatores importantes neste caso. Em leitura no tempo livre, medida em horas por semana, a Índia é campeã desde 2005 com dez horas e quarenta e dois minutos semanais de leitura contra cinco horas e doze minutos dos brasileiros. Falamos de média por habitante e sabemos que lá são praticamente seis para cada um aqui (dados de 2016 publicados pela Market Research World em seu Índice de Cultura Mundial, fonte: https://bvl.org.br/quais-sao-os-paises-mais-leitores-do-mundo/).

Quer um país melhor de verdade? Leia! O risco é descobrir que achava estar vivendo nesse conto de fadas que aparece nas propagandas políticas e de governos.

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