Casagrande sofre pressão dos números e dos aliados

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Um dia após o anúncio, o mercado político tenta entender: o que teria levado o ex-governador Renato Casagrande (PSB) a lançar-se pré-candidato ao Governo do Estado tão precocemente? A resposta está na pressão dos aliados e dos números.

Como não tem mandato e como não vai trocar de partido, o calendário eleitoral conspira a favor de Casagrande que poderia esperar mais tempo para sedimentar melhor seus passos eleitorais e observar os movimentos do governador Paulo Hartung (PMDB), este sim com prazos específicos, como, por exemplo, o da desincompatibilização, ou não, do cargo.

A precipitação de anunciar-se pré-candidato, de maneira modesta, sem lideranças ao lado, com sorriso amarelo, e com a tristeza que não combina com candidaturas recheadas de esperança, mostra que não se tratou de uma decisão espontânea. Quem conhece o ex-governador sabe, pelo semblante, que ele não estava confortável. Parecia mais a imagem melancólica de Ricardo Ferraço (PSDB), no abril sangrento de 2010, data marcada pela sua saída da disputa governamental.

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Então, por que a decisão precipitada, quando se esperaria de um bom jogador político a paciência de aguardar os passos adversários? Primeiro: Renato tem conhecimento dos números pré-eleitorais, de consumo interno, que não seriam favoráveis. Essas medições, via pesquisa, são feitas rotineiramente pelos partidos. Haveria, segundo fontes, diferença significativa entre ele e o governador. Por isso, longe dos fatos políticos de destaque, até porque está sem mandato, o ex-governador precisa movimentar-se, gerar fatos, se mostrar vivo para não deixar essa distância aumentar.

A outra explicação está na pressão dos aliados. Diferentemente do ex-governador, políticos e partidos que, eventualmente, têm uma simpatia por ele, mas que também trabalham com o calendário eleitoral nas mãos, cobravam uma definição quanto ao cargo a disputar. Havia rumores de que, diante do cenário difícil que o espera, o cargo de governador seria a última opção de Renato, podendo aventurar-se ao Senado ou à Câmara Federal. Sendo que essas duas últimas opções afastariam possíveis aliados.

Se estivesse confortável, o anúncio de pré-candidatura seria meticulosamente calculado e aguardado por Casagrande. Mas não está. O passo, precipitado, é quase uma atitude de desespero para não sair imediatamente da disputa. O ex-governador apontou a direção que pretende seguir, mas não sabe se chegará nela. Vai ver se cola, e se não colar, cai para outro cargo. Na verdade, o Senado é o seu sonho, mas para isso teria que ter um palanque forte de governador. Como não há, lançou-se ao mar atabalhoadamente.

Ainda sobre a pressão de aliados, há uma reflexão mais grave. Muitos que empurram Casagrande para um confronto contra Hartung, o fazem por tentativa de vingança ou por sobrevivência política. No último caso é porque querem disputar a eleição sem fazer parte do grupo governamental, e, na outra situação, porque não gostam do governador e querem derrotá-lo. Mas, independente dos dois interesses, o futuro em jogo é só um, o de Casagrande.

O couro que está sendo tratado em todos os cenários é o do ex-governador. Há quatro anos sem mandato, em ainda na expectativa de se entender com a Justiça, já que está citado na lista da Odebrecht, sob a alcunha de Centroavante, Casagrande não sobreviverá a mais quatro anos sem mandato no caso de uma nova derrota para Hartung. Assim, seu futuro político acaba.

Então, é cômodo para aliados forçá-lo a uma disputa. Primeiro, se ganhar não ganhou sozinho, mas com o apoio de todos; segundo, se morrer, quem morre é ele; e, terceiro, se morrer, será definitivamente menos um no xadrez político do Espírito Santo. Em resumo: ninguém que, teoricamente, está ao lado de Casagrande tem nada a perder ao vê-lo se digladiar novamente contra Hartung. Ninguém, exceto ele.

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“Aqui, os mortos são bons /Pois não atrapalham em nada /Pois não comem o pão dos vivos / Nem ocupam lugar na estrada” – Aguapé (Belchior/ Fagner)

 

 

 

 

 

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