Brumadinho: desastre anunciado?

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Brumadinho: desastre anunciado?

 

Imagem de uma cidade devastada. A cena de Brumadinho (MG), logo após o acidente com as barragens é chocante e está mobilizando centenas de pessoas. Acidente? Muita gente diz que ali estava uma tragédia anunciada há muito tempo. Anunciada, principalmente, pelo desastre com as barragens de Mariana (MG), em 2015. De lá para cá a indústria de mineração cresceu muito, mas a fiscalização e a segurança foram bem desproporcionais a esse crescimento. O resultado de tudo isso foram duas cidades destruídas e centenas de mortos, feridos e traumatizados.

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Lama e dor

A tarde de verão de 2019 parecia comum. Uma sexta-feira normal para moradores, trabalhadores e turistas do município de Brumadinho, em Minas Gerais. A região, com cerca de 40 mil habitantes tem muitas áreas que encanta o turismo, como o Instituto Inhotim – conhecido por valorizar a arte contemporânea e as trilhas pelas paisagens paradisíacas deste cantinho em Minas Gerais. O que pouca gente sabia é que esse ambiente pacífico estava prestes a viver seu maior pesadelo.

Era perto do almoço quando as barragens de Brumadinho, construídas pela companhia Vale, começaram a desmoronar. Gigantescas, as barragens aos poucos começaram a tomar toda cidade. Como contou ao portal Terra, o ajudante geral Antônio, fazia uma solda quando olhou para os lados e viu lama, uma lama gigante alcançando seus pés e tomando conta de tudo, não deu tempo de correr, de fazer nada só se segurar numa viga e esperar o socorro. Era um filme de terror.

Aos poucos sites, redes sociais, televisão, jornais nacionais e internacionais, todo mundo falava da cidade que nunca  foi tão lembrada. Em um relato emocionante o morador de Brumadinho, Paulo Fonsêca, escreveu: “Eu preciso falar que vejo meus amigos querendo ir embora para suas casas e não podendo, pois a lama há de invadir. Essa cidade pequena onde todo mundo é parente de todo mundo, conhecido ou amigo. Desse todo mundo já se contabiliza 50 mortos e 300 feridos”.

Todo mundo queria falar, todo mundo queria entender. O que era aquilo? O que era aquela cidade devastada em segundos. Quem era o culpado?

Uma natureza nada preservada

Dias antes da tragédia, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, participava do Fórum Econômico Mundial. Um dos eventos mais importantes para o relacionamento com os outros países. Em seu discurso, uma frase chamaria muita atenção depois com o acidente em Brumadinho. Bolsonaro disse que “O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente”. Não foi o que a gente constatou pouco depois.

A catástrofe assistida em Brumadinhos era anunciada. Aos poucos as análises do desastre com as barragens começavam a surgir. A autora do livro “Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil”, Cristina Serra, concedeu uma entrevista ao portal R7 em que afirmava: “A tragédia de Brumadinhos era anunciada”. Ela notava a falta de fiscalização em toda sua pesquisa. Em 2016, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) dizia que eram só cinco funcionários responsáveis por fiscalizarem 663 barragens no Brasil. Uma missão impossível. Tão impossível que deixou Brumadinho devastada pela lama.

E o pior, o riscos ali estavam anunciados, mas nada se fazia, pelo contrário. Segundo, O Globo, Complexo minerário de MG recebeu autorização do governo de Minas Gerais para ampliar a produção em até 88% até 2032. Ou seja, o desastre, se é que possível, poderia ser ainda maior.

Hoje o Brasil chora. Pela ganância, pela exploração sem medidas de nossos recursos, pelas casas, vidas e histórias perdidas. As imagens do resgate que mostram pessoas sofrendo e se ajudando traduzem como os dias são de dor e inconformismo e como as forças devem se juntar, por mais difícil que seja, para que o dinheiro não se coloque frente a milhares de vidas que ainda podem ser perdidas. Como disse Carlos Drummond de Andrade em um poema profético de sua autoria, publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano: “O Rio? É doce/ A Vale? Amarga/ Ai, antes fosse. Mais leve a carga (…)”

 

Foto: Reprodução/ TV Globo

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