Audiência para ruptura pública

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Na política normalmente onde há fumaça há fogo. Muito vem se falando que a relação entre o prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho (PSB), e seu vice, Jonas Nogueira (PP), não é boa. E não é mesmo.

Como manda a democracia, o convívio pacífico existe e assim deve ser porque, a priori, não há inimizade, mas apenas caminhos políticos divergentes. Mas eles ficaram bem claros na noite de segunda-feira na Câmara Municipal.

O vice-prefeito usou a Audiência Pública sobre o subsídio ao transporte coletivo municipal para demarcar território político e mostrar aos cachoeirenses a ruptura com a administração. Ficou evidente quando foi para o evento se manifestar contra o projeto do prefeito.

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Se ainda fosse aliado, Jonas não teria motivo nenhum para fazê-lo, bastando debater internamente o assunto ou simplesmente não ir à Câmara. Quando optou pelo ato é porque resolveu mandar recado. Que por sinal, foi entendido. Para quem assistiu ficou latente que não há mais ambiente político/administrativo entre ambos.

Mas o fogo aceso agora lança há tempos fumaça dentro do Palácio Bernardino Monteiro. Por lá, o vice-prefeito não é visto. A sala disponibilizada há vários meses pelo prefeito para que ele possa despachar e acompanhar os temas importantes do governo sente a ausência de Jonas. Quem sabe, de lá, pudesse ter debatido os prós e contras do projeto para chegar à Audiência falando a mesma língua.

Desde cedo se ouve sobre o distanciamento de Victor e Jonas (não necessariamente nessa ordem), mas o motivo é uma incógnita. O vice-prefeito sempre pretendeu ter um lugar de destaque e foi chamado para ser secretário. Mas não aceitou, optando pelo papel constitucional do cargo. Acabou indicando o secretário de Desenvolvimento Econômico, pasta das mais relevantes para um município percapitamente pobre como Cachoeiro, e indicou também o coordenador do Procon. Ou seja, têm dois nomes na sua cota pessoal no primeiro escalão, o que, aparentemente, não lhe dá motivos para insatisfações.

E agora, nesta eleição, imagina-se que o então candidato a deputado federal Jonas Nogueira desejasse ter o apoio da administração. O que não aconteceu. Ainda assim mostrou força obtendo 14.114 votos só em Cachoeiro. E essa força pode ser a mola que impulsionou esse rompimento público e que terá desdobramentos em 2020.

Até aí nada demais. Porém, o vice pode ter se precipitado na sua movimentação. É que mesmo que tenha motivos para romper com a atual gestão, para a população que não acompanha o dia a dia dos bastidores pode parecer que a ambição tenha falado mais alto. Ela pode não entender, por exemplo, como um vice-prefeito eleito recentemente, e que tem cargos e espaço na administração, faz oposição às claras ao seu próprio governo?

Uma outra questão paira no ar caso o rompimento seja por causa do seu bom desempenho eleitoral: o eleitor votou em Jonas para deputado porque ele pertence à administração e tem sua imagem ainda ligada ao prefeito Victor, ou para construí-lo como oposição ao governo Victor? Qual o sentimento desse voto? O de projetar uma nova liderança ou o de fortalecer o prefeito Victor, liderança ainda em plena construção?

Quem pode ter a resposta é o próprio Jonas. Ele sabe como se apresentou ao eleitor. Como oposição? Como governo? Ou usou as duas formas para se apresentar, beneficiando-se daquela que melhor se encaixava com o sentimento do momento?

Seja lá como tenha sido, fato é que se o comportamento do vice-prefeito for o de se afastar ou se aproximar da administração quando isso apenas lhe for conveniente, o ato não será engolido. Isso ficou explícito quando na Audiência o secretário de Governo, Weydson Ferreira, usou o microfone. O discurso foi em cima de duas palavras: transparência e responsabilidade. Ambas aparentemente direcionadas a Jonas Nogueira.

 

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