Aparências

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A pequena menina, dos cabelos cacheados e volumosos, correu em direção à piscina de ladrilho azul claro, planejava pular lá dentro para se aventurar em mais uma de suas brincadeiras. Tal espaço havia dominado seus pensamentos e tido a sua total atenção, desde cedo até àquele momento, mas não mais que isso, visto que seus olhinhos, encantados, avistaram na goiabeira ao lado, entre as folhas ressecadas e de aparência desanimadas, um arco íris em forma de rastejo.

A pequena, atônita, percebeu que algo se movia entre aquelas folhinhas, e fascinada com a vivacidade das cores, direcionou-se a passos largos até lá, embora suas perninhas fossem curtas, corria, pulava, queria de toda forma pegar, tocar, ter em suas mãos a vida colorida que se anunciava e realçava na madeira; ali estava uma lagarta.

Não alcançou, os galhos altos a impediam de tal proeza;  voltou a varanda e agarrou um banco de alumínio, enquanto tentava correr de volta, agora com o peso.

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Ela parecia não pensar muito bem o que estava prestes a fazer, quase tropeçou, cambaleou um pouco pro lado, mas continuou. Posicionou o suporte milimetricamente embaixo da sombra e subiu em cima dele com toda animação, mas ainda não alcançava. Chateada pela privação, pôs-se na ponta dos pés, pronta para agarrar o inseto,  quando ouviu sua mãe, aos gritos, lhe chamar, o que a deteve.

A mãe, desesperada, tirou-a do assento o mais rápido que pôde, perguntando o que a pequena pensava em fazer. E a menina, com o sorriso murcho, apontou para as cores acima delas. Pálida e preocupada, a mãe contou o quanto o veneno daquele ínfimo inseto poderia lhe fazer mal, e assim foi respondendo a cada uma das perguntas da filha; diga se de passagem que sempre foram muitas as questões.

A menina acabou por entender, e embora ainda desejasse ter aquela gama de cores em suas mãos, soube que não era o melhor para si, contentou-se em contemplar. Antes, inocente, queria apenas descobrir o mundo, pensava que nada poderia a deter, e lhe fazer mal. Mas, aprendeu que as aparências podem enganar, e, que nem tudo o que é belo é bom, e que nem tudo o que se deseja é o melhor.

REBECCA DE ARAUJO RIBEIRO (Aluna do curso de Letras do Ifes Venda Nova do Imigrante).

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