Morte e Vida

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É parte inseparável da vida no planeta aquele período, pequeno ou não, quando as coisas são “arranjadas” para que algo novo substitua o anterior. A história está repleta de exemplos de cada novo momento, mas as transições são pouco ou nada citadas. Se intencional ou por ignorância, não sei. Do que sinto, estamos em plena transição e, se você espera otimismo, pare de ler agora.

Há um cheiro ruim no ar. Sabemos o potencial que um único ovo podre tem de contaminar todo o ambiente com aquele odor tão característico, mas o cheiro que percebo é pior. Lembra decomposição, aquela etapa em que a vida que se foi alimenta novas vidas mais adiante, e no durante serve aos carniceiros e moscas e vermes. É desse momento que vem o cheiro, da transição que falei antes, não do que existia antes dela.

Não estamos mais na vida anterior (no “como eram as coisas”) e nem no início da próxima, mas exatamente no tempo da transição, que desta vez apresenta um festim macabro cujo cheiro impregna até pensamentos. Miasmas, odores fétidos de matéria orgânica em putrefação. Tempo em que a substância é anulada pela aparência, pela casca, onde um mínimo de pessoas atua fortemente a favor do continuar cada vez mais putrefato. Da maioria, ouço algumas pessoas que dizem escatologias, a explicação delas para a podridão que se espalha e, das outras, somente um silêncio perturbador. Um comportamento que beira ao conformismo de mãos dadas à total alienação.

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O podre não as incomoda, as carnes expostas tampouco e os olhares de satisfação dos carniceiros muito menos. Algo parecido com o sentimento da invisibilidade salvadora, aquele momento em que a pessoa acha que se não for vista não será envolvida nem vítima dos fatos, como se isso fosse possível.

O cheiro é ignorado, como é ignorado que o prato servido vai acabar e logo os carniceiros buscarão outro e mais outro, até que o novo surja. Como se permitiu que tamanha ignorância crescesse em duas gerações somente? Como explicar seres humanos transformados em insumos prestes a serem processados? Milhares de anos de pensamentos e sabedoria ignorados exatamente em uma época entre épocas.

O cheiro me oprime o coração de tal forma que a alegria por dias melhores nem cogita espiar, cedendo seu espaço na fila para a temeridade quase convicta. Certezas que surgem a cada instante permitem isso. Alto consumo e baixa espiritualidade. Divisões crescentes com classificações das pessoas acompanhadas de insidiosa animosidade. Manipulações escancaradas sem reação à altura de poderes esvaziados.

O sentimento é o de uma transição não natural desta vez, não evolutiva. Pelo retrovisor se sabe que já aconteceu antes e em vários momentos. Pensar que apenas duas gerações bastaram para riscar essa lembrança da consciência coletiva é assustador, daí a temeridade pelo que está por vir. Estamos todos desarmados ou quase isso para a necessária superação, que só virá pelo enfrentamento, como também o foi antes.

A esperança que ainda reside espera pela recuperação rápida e espontânea do olfato geral, que consiga captar não somente o cheiro mas o seu significado. Não há espaço para messianismos nem ideologias esvaziadas de qualquer sentido. Há apenas a chance do pragmatismo se, e apenas se, o tempo for suficiente para nos prepararmos para a enorme praga que se aproxima. Basta de alimentarmos tão farta e facilmente os carniceiros, pragas são cruéis e não seletivas!

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