A MORTE DE SÓCRATES

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Crédito: grethexis.com
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Na primavera de 399 a.C., três cidadãos atenienses instauraram um processo contra Sócrates, o filósofo. Acusavam-no de não venerar os deuses da cidade, de introduzir inovações religiosas e de corromper os jovens de Atenas. A gravidade das acusações era de tal ordem que exigia pena capital. Sócrates reagiu com serenidade absoluta, apesar de, durante o julgamento, lhe ser dada a oportunidade de renunciar às suas ideias. Ele preferiu manter-se fiel à busca da verdade a assumir uma conduta coerente a sua consciência. Segundo o relato de Platão, ele desafiou o júri com as seguintes palavras:

“Enquanto eu puder respirar e exercer minhas faculdades físicas e mentais, jamais deixarei de praticar a filosofia, de elucidar a verdade e de exortar todos que cruzarem meu caminho a buscá-la […] Portanto, senhores […] seja eu absolvido ou não, saibam que não alterarei minha conduta, mesmo que tenha de morrer cem vezes” (Enciclopédia Universal – Pensadores: Vol. 23 – Trad. Id/Alemã, pp. 673 – 1026).

A filosofia socrática não se limita a sua profundidade pedagógica e não se reduz as múltiplas possibilidades do seu maiêutico pensamento, ela avança e atinge a alma do filósofo, o seu intelecto, sua ousada composição, sua irônica inspiração e a comunitária e construída verdade. Aliás, Sócrates inaugura o que conhecemos como “encarnação da metafísica consciente”, que o vitimou a morte. Matar ou morrer pela verdade exposta era, e continua sendo uma “falha” da própria verdade construída ou absoluta, pois os homens ainda matam ou morrem em nome da verdade do ontem, do hoje e do amanhã. Isso não é regra, mas é parte da regra.

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Contudo, a condenação do filósofo foi algo que confrontou a sua “consciência ética”, onde morrer significava salvar o que ele sempre defendeu, dando oxigênio a sua consciência e consolidando seus princípios imanentes e transcendentes. Sua morte não representou a morte dos seus princípios, pelo contrário, iniciou uma saudável revolução, porque a autonomia da dúvida foi salva por quem sempre duvidou e desafiou a obviedade, o absolutismo e a estática conclusão. Assim, Sócrates tornou-se discípulo das suas irônicas possibilidades, das suas interrogações e das suas invisíveis respostas.

Essa desafiadora decisão mostrou ao filósofo que as convicções são nocivas a verdade e que essa mesma verdade precisa respeitar o universo de possibilidades, as insistentes dúvidas e até mesmo suas justas alterações no conclual processo. Por isso, ler Sócrates com os olhos dogmatizados é uma perigosa atitude que pode levar o leitor a erros exegéticos seríssimos, ao ponto de despersonalizar seu pensamento e seus encarnados princípios. Sócrates deve ser lido sob a perspectiva da “verdade futura” e da construção do amanhã, iniciando o agora sem a sistemática pressa para encontrar respostas e tendenciosos encontros.

Outra característica do pensador é a sua habilidade preventiva. Quando Sócrates abre possibilidades para construção da maiêutica verdade ou da “verdade futura”, ele não está celebrando a dúvida ou criando fugas para o seu discurso, ele está acenando para as mutações que a sociedade sofre e para as inevitáveis consequências que recaem sobre aqueles que se fecham em respostas. Um belo exemplo é a política e a religião, duas vertentes que precisam ser contextualizadas em suas práticas administrativas e orgânicas, ou então, seguirão o incriativo caminho da mesmice que lança sobre seus protagonistas o pejorativo rótulo de político ou de religioso. Uma leitura corajosa e contextual, pode evitar os traços e o comportamento anacrônico desses dois importantes pólos que formam a sociedade.

Enfim, a filosofia socrática apresenta para o hodierno mundo duas grandes lições, a primeira está ligada a construção de possibilidades, e não de apressadas respostas que estimulam equivocadas verdades. Sócrates tinha preocupação com a verdade, contudo a verdade não era a sua principal preocupação, e sim, a sua fórmula construtiva. Diálogo, respeito ao pensamento contrário e a inclusão da pluralidade no debate continuam perpassando os séculos e ainda são tabus intimidatórios e infrentáveis, principalmente para os núcleos político e religioso. A segunda lição está atrelada a “Didática Preventiva”, um simples dever de casa esquecido pela presente geração (geração fastfood), criada na “cultura do automatismo”, onde tudo é rapido, pronto e sem muito esforço. Uma prova cabal deste diagnóstico é o crescimento das literaturas que, magicamente abordam profundos conceitos sobre a vida e seus eventos de forma pueril, superficial e sem o mínimo compromisso de construir, basta querer, mesmo sem poder. É a confusa colisão entre o real e o surreal, a abstração entre o imaginário e o existente e o crescente divórcio entre a conduta e o pensamento.

Assim, a emblemática morte de Sócrates foi a sua maior lição, seu maior legado e a sua maior construção!

A ideia não morre, ela vence a morte e derrota qualquer força!

Sócrates vive,

Weverton Santiago

MAIÊUTICA: método socrático que consiste na multiplicação e na possibilidade de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades e na conceituação geral de um objeto.

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