A cor roxa da páscoa

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Era manhã de páscoa, já acordara ansioso. Corri para a sala onde estava o “ninho do coelho”, preparado no dia anterior com capim verde escuro, em uma bacia arredondada, de cor amarela, bastante gasta pelo uso.

A alegria da inocente criança ao ver os ovos de páscoa foi inesquecível. Se não me engano, eram cerca de oito ovos de galinha tingidos e dois de chocolate, de tamanho equivalente. Os de chocolate estavam embrulhados em um papel cinza, com desenho de um coelho azul.

Todos os anos seguintes, sempre meu ninho tinha mais ovos tingidos do que de chocolate. Confesso: não gostava disso, pois o açúcar do chocolate me agradava mais do que o já conhecido ovo cozido.

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Fui crescendo, desacreditando em algumas coisas e acreditando em outras. Creio, hoje, que o que é feito por nossas próprias mãos tem um sabor e valor especiais. Aprendi que o “valor comercial” está disfarçado de embrulhos coloridos e de brindes no oco da casca fina do chocolate.

Pensando assim, nos últimos anos passei ajudar minha tia a preparar os ovos, em todo final de tarde de “sábado aleluia”, véspera da Páscoa. Desenterrar as “batatinhas” da planta, que tem como única finalidade colorir o imaginário das crianças e adultos da família na data mais importante para os católicos.

O processo é simples, as “batatinhas” são lavadas, uma por uma. Tiradas as raízes e a terra, é hora de socá-las para extrair a cor. Depois disso, acrescentar em uma panela: a mistura, os ovos e água. Ferver por alguns minutos e deixar esfriar. O resultado são ovos cozidos, tingidos com uma coloração roxa bem escura.

Este ano, essa tradição se renovou e foi a páscoa mais especial para minha família, pois preparei os ovos coloridos para meu pequeno irmão, de um ano. Ele ainda não entende o que é Pascoa e nem pode comer ovos cozidos e de chocolate. Mas senti que é a minha vez de passar adiante os verdadeiros significados do último domingo.

É nos pequeninos que devemos plantar a semente da humildade.

EDÉZIO PETERLE (Jornalista e aluno do curso de Letras do Ifes Venda Nova do Imigrante).

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