A capacidade de amar esvazia o mal

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Basta uma virada errada na cama e surgem as dores. Aparecem do nada. Chego até a imaginar que elas ficam escondidas em alguma parte do meu ser. Não as tenho como inimigas, porém, não as aceito com facilidade. Na minha fantasia, elas são conhecedoras da minha rejeição, por isso se escondem em lugares secretos.

Um dia desses, abaixei-me para pegar um pequeno bilhete e uma se manifestou nas primeiras vértebras da cervical. No mesmo instante, tornou-se parte de mim. Procurei-a por horas e horas, não a localizei. Escondeu-se de maneira tão profunda que só foi encontrada com a ajuda de um aparelho de ressonância e combatida com uma forte medicação.

Estou mais vigilante. Estou mais precavido. Não estou me abaixando de qualquer jeito. Cuidando mais dos meus movimentos. No entanto, sei muito bem que elas têm diversas fontes e uma enorme variação. Perpassam o emocional, o espiritual e o físico. Todas, independentemente do nível ou localização, exalam odor de sofrimento e solidão. Causam mal a nossa humanidade. Geram sofrimento, esfriamento e desânimo. Produzem um silêncio carregado de angústia, que grita aos quatro ventos.

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Os psicólogos nos ensinam que, geralmente, quando o mal e o sofrimento atravessam nossas vidas, tendemos a duas respostas instintivas:  a primeira é escapar, evitar o confronto, esconder-se para não sofrer. Tendemos a passar um dia deitado para que desapareça. Essa resposta, evidentemente, deixa o mal intacto.

A reação imediata é a segunda resposta instintiva.  A máxima popular: o ataque como a melhor defesa. Pagar o mal com o mal. Esse tipo de resposta não tira de fato a realidade do mal, ao contrário, multiplica-o, porque agora a fonte não está apenas no outro, mas também em nós mesmos. A violência, a fábrica de dor do outro, alcançou seu propósito mais profundo: também nos levou a ser violentos e a odiar.

Quando olho para vida de Jesus, percebo que Ele não segue as nossas estradas:  a de fugir diante do mal, reconhecendo que este é mais forte e que não há nada a fazer; ou a de responder ao mal com dureza e violência, deixando-se dominar por ele.

O caminho trilhado por Jesus é responder ao mal com uma maior capacidade de amar, com a escolha de sofrer em vez de fazer sofrer. É isso que, em Jesus, esvazia a força do mal.

Como sei que nem Ele escapou das dores, quando as minhas dores apertam, no silêncio dos meus gritos internos, peço apenas uma graça: que minhas dores não fabriquem dores naqueles e naquelas que convivem comigo.  Que eu rompa com a lógica de que os sofridos fazem sofrer.

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