Cidades

Vulcões, enxurradas e secas: o que esperar se o mínimo solar durar até 2053?

COMPARTILHE
Vulcões, enxurradas e secas: o que esperar se o mínimo solar durar até 2053?
544
Advertisement
Advertisement

“O clima é controlado pelo sol e pelo mar”. As palavras do climatologista Henrique Lobo, durante uma palestra no Sustentabilidade Capixaba, em 14 de junho, em Linhares, traz consigo uma série de desafios para a humanidade nas próximas décadas. Isso porque vivemos, atualmente, um período em que o sol está em baixa atividade. “Se esse mínimo solar que vivemos agora, chamado mínimo solar da Era Moderna, durar até 2053, teremos secas prolongadas”, revelou.

Advertisement
Continua depois da publicidade

Mas a preocupação vai além. Uma comparação com outro ciclo mostra a gravidade da situação. “Em 1800, tivemos um período de mínimo solar. Os vulcões da Islândia entraram em atividade e jogaram tantas cinzas em cima da Europa, que a população local, sem poder cultivar alimentos, passou fome”, explicou o climatologista, apontando que foi naquele século que ocorreu um grande êxodo no continente europeu, com italianos e alemães vindo para a América do Sul, ingleses procurando terras nos Estados Unidos e Austrália e franceses buscando oportunidades na Líbia e Nigéria.

Na palestra, Henrique Lobo falou também da necessidade de preservação de nascentes no Espírito Santo, Estado que está fora da área dos aquíferos Guarani e Alter do Chão. “Somos ricos em nascentes, mas paupérrimos em águas subterrâneas. Por isso temos que cuidar das nossas nascentes. Se elas secarem, onde buscaremos água?”, questiona.

Mínimo solar, La Niña e consequências: confira os principais pontos abordados durante a palestra do climatologista Henrique Lobo:

 

Ciclos do sol

Continua depois da publicidade

O clima é controlado pelo sol e pelo mar. Nosso planeta é composto por 29% de terra e 71% de oceanos e o maior oceano que temos é o Pacífico, que cobre 35% do planeta. O sol tem dois ciclos. Um de onze anos, onde nossa estrela, tem períodos em que brilha mais e outros em que brilha menos, numa onda. Além disso, há um ciclo de cem anos, em que essas curvas de onze anos, serão mais curtas, o que chamamos de mínimo solar. E esse ciclo começou em 2019 e vai durar até 2030. E, se os dois próximos ciclos do sol, de onze anos, forem semelhantes ao atual, nós vamos viver esse mínimo solar até 2053.

Mínimo solar e êxodo na Europa

Então, nós vemos que toda vez que tivemos um mínimo solar, como em 1610 a 1730, tivemos 70 anos do fenômeno. Para quem morava em Machu Picchu, no Peru, no período, faltou alimento. Eles precisaram adentrar a floresta e, como se passaram sete décadas, eles não voltaram mais para o lugar original deles. Em 1800, tivemos um período de mínimo solar. E os vulcões da Islândia entraram em atividade e jogaram tantas cinzas em cima da Europa, que a população da Europa, sem poder cultivar alimentos, passou fome.

Advertisement
Continua depois da publicidade

Então, Dom João VI veio morar no Brasil, com uma comitiva de 15 mil pessoas. Muitos ingleses foram morar nos Estados Unidos, na África do Sul, Nova Zelândia, Austrália. Alemães e italianos vieram para o Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Os franceses foram para a Líbia e Nigéria. Aqueles que não tinham condições financeiras na França, foram, por causa da fome, para a queda da Bastilha, ou seja, para a guerra civil. Naquele período só os burgueses tinham dinheiro para comprar comida.

Mínimo solar da Era Moderna

Se esse mínimo solar que vivemos agora, chamado mínimo solar da Era Moderna, durar até 2053, teremos secas prolongadas. Hoje, estamos passando pelo chamado Ciclo 25, que durará até 2030. Tivemos, no ano passado, chuvas na Alemanha intensas. Nevou em 60 cidades brasileiras, tivemos chuvas no Chile, 40 graus de temperatura no oeste do Canadá e Estados Unidos. Se os ciclos 26 e 27 forem semelhantes ao que vivemos agora, o grande mínimo solar da Era Moderna vai durar, portanto, até 2053.

Pangeia e as serras brasileiras

Nosso planeta começou como uma porção seca e uma porção de água. Eu penso que, por causa do mínimo solar, o magma fica muito agitado. Isso porque os raios infravermelhos e ultravioletas do sol freiam os vulcões na terra. Quando esses raios ficam retraídos, outros raios cósmicos entram na nossa atmosfera e os vulcões entram em atividade. Imagine, então, naquele período, a América do Sul se afastando da África, no momento em que as falhas geológicas se romperam. Quando a América do Sul bateu na falha geológica do Pacífico, cresceu uma montanha enorme que hoje nós chamamos de Cordilheira dos Andes.

Veio uma planície, um planalto, e uma montanha um pouco menor, que chamamos de Serra do Mar no Paraná, Serra da Mantiqueira no Rio e São Paulo, Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, na Bahia, Chapada Diamantina e na Paraíba, Serra da Borborema. O mar chegou até essa cadeia menor de montanhas. Quando voltou, rasgou a terra. Espírito Santo, Rio de Janeiro, Leste de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte viraram um mar de montanhas. Do Paraná até o Amapá tem petróleo porque é um aterro do mar. É a bacia continental brasileira.

Cadeia de montanhas e chuvas

Foi o crescimento das montanhas em todo o mundo que fez com que as chuvas começassem a acontecer em todo o mundo. Quando estava tudo junto, não havia chuva. Era só um sereno. Depois, com a separação dos continentes, com essas cordilheiras e montanhas, começou a chuva. 

La Niña e mínimo solar

A La Niña é o fenômeno de resfriamento de parte das águas do Pacífico. É interessante que com o mínimo solar de 2019, já tivemos duas ocorrências de La Niña, uma em 2020 e outra em 2022. Quando temos o El Niño, que é o aquecimento das águas do Pacífico, chove no Sul do Brasil e no Norte é seco. Quando temos La Niña, é seco no Sul e chove no Norte do país. E nós moramos no meio do caminho. Vai secar ou vai chover? Este ano, vimos que choveu muito no Sudeste. Os dados mostram que a La Niña vai até o trimestre dezembro, janeiro e fevereiro. Então teremos mais enchentes e mais chuvas no período. Podemos passar por outras enchentes nas bacias do Itapemirim e do Rio Doce. 

Ventos alísios

Para a América do Sul, os ventos alísios vêm da África. Estima-se que saem do deserto do Saara 187 milhões de toneladas de poeira, atravessam o Atlântico e chegam, na floresta Amazônica, 23 milhões de toneladas. Desse total, 22 milhões de toneladas são de fósforo. Aduba a floresta. Então, o Atlântico pulveriza a Amazônia e faz chover na floresta. Nós somos beneficiados pela Cordilheira dos Andes, de outubro a março. Essa evaporação do Atlântico que chega e ‘bate’ nos Andes, desce e forma a Zona de Convergência do Atlântico Sul. Nos 50 quilômetros entre o litoral e interior do Espírito Santo, tem muita interferência do mar. Há alguns ciclones que pulverizam muita água na região litorânea. Mas grande parte da nossa chuva vem da Amazônia. 

Encontro das florestas

Em Regência, temos encontro de duas grandes correntes brasileiras. Uma de água quente, que sai da Namíbia, na África. Chega no Rio Grande do Norte, parte dessa corrente vai para o Golfo do México e parte vai até Regência. E a corrente que vem da Antártica e chega até Regência, na foz do Rio Doce. A mesma coisa aconteceu com a floresta Amazônica, que vai até o Vale do Rio Doce e a floresta que veio do Sul chegou ao Vale do Rio Doce. Essa região já teve 400 espécies de árvores por hectare por causa do encontro dessas duas grandes florestas. Até hoje, em reservas da bacia hidrográfica do Rio Doce, ainda estamos reconhecendo árvores.  

Ação humana e mudanças na terra

Hoje em dia, 33% da população mundial não tem acesso a sistema de esgoto. Mais de 700 milhões não têm acesso à água totalmente potável. Aí entram os aquíferos. Na América do Sul, temos dois: o Guarani, no Sul, e o Alter do Chão, na Amazônia. Os dois se encontram, se comunicam, na Bolívia. Mas no Espírito Santo, não temos aquífero. Somos ricos em nascentes, mas paupérrimos em águas subterrâneas. Por isso temos que cuidar das nascentes. Se elas secarem, onde buscaremos água? O prognóstico que temos do Rio Doce é que, se não trabalharmos nas nascentes, a tendência para 2030 é de os rios ficarem intermitentes. Temos de ter esperança, colocar a nova geração para pensar na nossa diversidade. Há esperança. 

Advertisement