Opinião

Uniaves: o feitiço se repete — por José Caldas da Costa

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Nos últimos anos, nós, capixabas, passamos a ter orgulho de comer proteína produzida por uma marca nossa, a Uniaves. Resultado da união de pequenos produtores de nossa região serrana, notória fornecedora de hortigranjeiros, a Uniaves resolveu o problema da lei do limite dessa produção dispersa e passou a fornecer para o mercado nacional. Cresceu, mas somente conseguiu atingir a metade de sua capacidade instalada.

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De repente, o feitiço se repetiu: a lei do limite bateu à porta da Uniaves na hora de produzir em sua capacidade máxima e chegar ao mercado internacional. Então, foi a vez de entrar em ação outra lei, a da incorporação. E é assim que a marca orgulho capixaba, tão saudosos que somos da perda da Garoto que nos representava, vai para as mãos de outra gigante, a Pif Paf, sediada no Estado vizinho de Minas Gerais.

Somente juntas as duas serão capazes de chegar ao exigente mercado internacional, cada vez mais demandando proteína para consumo humano. Assim, o frango nosso de cada dia vai cada vez mais se “comoditizando” e nós, pobres terceiro-mundistas, vamos ter de consumi-lo a preços de Primeiro Mundo.

Assim como já acontece com a proteína bovina e, mais recentemente, com a suína, que saiu da fogueira inquisitória do “faz mal para a saúde” para ganhar status de excelente fonte do primeiro nutriente de nossa dieta. Na mesma toada vai o ovo. Qualquer pessoa que vá ao mercado sabe que as carnes bovina e suína dobraram de preço nos últimos 12 meses e que frango e ovos estão no mínimo 50% mais caros.

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Na lógica do feitiço do capitalismo internacionalizado nós somos consumidos. Sem dó nem piedade, o que me faz lembrar uma historinha doméstica. As crianças ainda eram pequenas quando, morando em Colatina, numa casa de quintal, resolvemos comprar 12 pintinhos e criá-los. Cuidamos e alimentamos até virarem frangos.

Depois de uns 40 dias, confrontamo-nos com nossas leis do limite. Primeira, a partir dali, se não fossem incorporados à nossa dieta, incorporariam nosso salário – cada vez consumiriam mais ração e converteriam em menos carne; segundo, negócio e emoção não andam juntos. Minha mulher abateu as aves e colocou no freezer, mas ninguém conseguia comê-las porque criamos relação afetiva com os animais – eram os pets de nossas crianças.

A Uniaves se vai e não adianta chorarmos. Negócios não comportam apegos emocionais. A partir de agora, é a lei do limite. Ou incorpora ou é incorporada para continuar a crescer. Do contrário, toma o caminho do buraco, que alguns chamam de estagnação – mas ninguém fica parado, ou se avança ou se recua. Incorporada à Pif Paf, a Uniaves bate asas e sai do chão para repetir o feitiço de sua própria origem.

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José Caldas da Costa é jornalista e geógrafo, especialista em Psicologia Positiva e Desenvolvimento Humano

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