Política Regional

“Nós temos o fim de um longo ciclo do PT e a decadência de um ciclo que nem sequer se iniciou”, analisa cientista político em entrevista ao AQUINOTICIAS.COM

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O cientista político, jornalista e escritor capixaba, João Gualberto Vasconcellos, concedeu entrevista ao AQUINOTICIAS.COM e explanou sobre diversos assuntos relacionados ao cenário político local e nacional. Confira!

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AQUINOTICIAS.COM– João, como você avalia o atual cenário da política, onde prefeitos e vereadores tomaram posse recentemente e enfrentam um momento conturbado de pandemia e da intensificação da racha entre a esquerda e a direita? Como deve ser daqui pra frente?

João Gualberto– Eu tenho duas observações: primeiro que eu acho o posto de administração municipal um dos mais difíceis do sistema brasileiro, porque é de responsabilidade de alguém que lida com o dia a dia da população, que lida com as misérias do nosso País…seja na saúde, no saneamento, seja com os problemas do interior, as estradas, enfim, é um dia a dia muito difícil, de muita pressão. É um posto que exige muito trabalho, muito tempo, empenho e dedicação.
A segunda coisa é que o Brasil vive um momento muito difícil. Há uma crise sanitária evidente e essa crise tende a se aprofundar. O problema mais grave dessa crise sanitária é o ponto que nós estamos nessa curva e nós vemos cerca de 40 países do mundo se vacinando, se iniciando pelos grupos de maior risco, os mais velhos e os que têm comorbidades, então a taxa de letalidade tende a se reduzir nesses países, mesmo que não se vacine 100% da população. O Brasil, no entanto, está longe de saber quando a vacinação vai se iniciar, tem crise de seringa, tem crise de formalidade de registro de vacina… então essa nossa crise econômica ela só começa a se arrefecer quando nós tivermos a vacinação em massa. Então, para o prefeito que lida com um ponto tão difícil, ele já vai começar o governo dentro de uma crise sanitária e uma crise econômica.

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E o pior: a existência da vacina em outros países e o evidente caos do governo nacional em resolver essa situação vai causar uma pressão muito grande, então eu acho que nós vamos ter um verão de muitas mortes, basta ver aí as aglomerações em todo litoral brasileiro. Um verão de muitas mortes e muita pressão para as prefeituras. Os prefeitos terão que ter muita vontade, coragem, esforço e muita relação com a sociedade para vencer um quadro muito grave que está instalado no país.

AN– Em 2020 nós tivemos uma eleição bem atípica, dentro de uma pandemia, onde o contato com o povo foi um pouco restrito, apesar de toda uma aglomeração dos cabos eleitorais com o candidato fazendo uma campanha mais digital. E tivemos uma eleição que evolveu muitos candidatos na disputa à prefeitura. Em algumas cidades até 14 disputando o cargo, fazendo com que houvesse uma fragmentação de votos. Tivemos prefeito eleito com 32% dos votos, ou seja, ele não teve a maioria dos eleitores ou da cidade. Você acredita que esse gestor terá um desafio maior é?

J.A– Eu acho o seguinte: primeiro que esse quadro ele é produto da redução do quadro partidário brasileiro que houve por município. Movimento sem coligação nas proporcionais para os partidos irem ao fundo de financiamento das campanhas, então foi preciso se organizar partidariamente pra ter acesso ao fundo e não podia fazer coligação, isso aí fez com que cada partido tivesse seu candidato a vereador, a prefeito. Foi uma eleição tumultuada em função disso.

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Evidentemente que nas cidades que têm dois turnos, aqui no Estado isso só acontece na região metropolitana, isso se resolve com candidatos que se agregam. Basta ver que no segundo turno vários candidatos do primeiro turno foram nomeados, agregados, viraram secretários… então o segundo turno organiza um pouco isso, e nessas cidades ondem não têm segundo turno, como no caso de todas as cidades do Sul do Estado, o risco dessa multidão de candidatos que acontece é, na verdade, de potencializar o que vem acontecendo: você ter um candidato que se elege com uma pequena margem de voto.

É o caso do ex-prefeito de Colatina, o Sergio Menegueli, que é uma estrela hoje da comunicação, mas que se elegeu com quase 50% dos votos. É um quadro que dá muito trabalho para o prefeito, porque ele tem que começar e não pode ficar restrito a 30%. Há uma tentativa política hoje de você governar com uma pequena fração dos eleitores, esse status é o do Bolsonaro. Ele conhece a maioria e governa pra uma minoria, mas isso do ponto de vista da gestão municipal é uma tragédia. Creio que o governo não fará a loucura de trabalhar só pra quem votou nele, então tem o trabalho de construção do bom senso, tem o trabalho de ampliação das bases iniciais que é do campo da política mesmo. A política é isso: é construção de consenso, da aliança, enfim… mas você tem a pandemia, você tem a crise econômica e você tem a necessidade de ampliar a base em cada um dos municípios. Teremos então um começo de gestão com grandes desafios.

AN– Como que o senhor vê o resultado das eleições em relação ao Partido dos Trabalhadores? Parece que o partido vem numa decadência, perdendo cada vez mais espaço na política brasileira e no Espírito Santo, que dessa vez não elegeu nenhum prefeito.

J.A– A política brasileira tem ciclos. De uma forma geral os ciclos regionais são de mais ou menos 20 anos. É só a gente lembrar que entre Camata e Paulo Hartung foram cinco governadores: Camata, Max Mauro, Albuíno Azeredo, Vitor Buaiz e José Inácio e depois o Paulo Hartung. E se você olhar para trás é quase a mesma coisa entre Carlos Lindemberg e Chiquinho, depois entre Cristiano e Eurico Rezende. Então a política é ciclo mesmo, e é natural que isso aconteça. Fala-se até de uma brincadeira de chamar de fadiga de material, então eu acho que o ciclo do PT também está se encerrando, o partido veio com Lula presidente da República duas vezes, depois a Dilma presidente da república duas vezes, se aproximando aí dos tais 20 anos. Acabou que o partido se envolveu desde o mensalão, em 2005, até envolvimentos que resultaram no impeachment da Dilma, que se envolveu num quadro de corrupção muito evidente né? A operação lava Jato colocou isso de forma muito clara e eu acho que esse ciclo realmente ele tá chegando ao fim.

O que me parece é que o ciclo de extrema direita não se completará. Não vejo condições. É muito tumulto para um país só! Você vê que o presidente americano é um dos poucos presidentes não reeleitos nos EUA, algo natural nesses países e no nosso também. Então aparentemente nós temos o fim de um longo ciclo do PT e a decadência de um ciclo que nem sequer se iniciou. Então eu acho que o Brasil nos próximos dois anos, em um ano e meio na verdade, precisa construir forças de centro, forças democráticas, forças preocupadas com políticas públicas na área de saúde, área de meio ambiente, enfim, é preciso que haja um pouco mais de diplomacia da política. Essa política de ataques pessoais, essa política de elogios de tortura, isso tudo acaba sendo engraçado, mas acaba sendo também muito desgastante, eu acho que é uma política que tem pequena durabilidade.

Acabou que você me perguntou do PT e fiz uma fala mais ampla concordando que o PT está realmente encerrando seu ciclo, mas também os resultados eleitorais dos partidos mais tradicionais também reduziram, como o PMDB. Os partidos que crescem geralmente são aqueles encostados na máquina do poder. Então se o governador cresceu, seu partido cresce. O Casagrande está no poder, o PSB cresce. Então isso aí é um alinhamento necessário estadual pra facilitar a questão dos recursos, não é partidário, ideológico, é o pragmatismo do nosso dia a dia, como age o partido no dia a dia. É o fim de um ciclo na política brasileira e é necessário que nasçam novas lideranças, e desses prefeitos eleitos é provável que venham novas lideranças para o Estado.

AN– Muito se falou em reforma eleitoral, em unificar as eleições. O senhor acha essa possibilidade boa ou ruim? E como isso interfere nas articulações políticas?
João- Olha quem é da minha época, quem tem mais de 50 anos, vai lembrar da eleição de 82 onde o governo militar instituiu uma coisa chamada voto casado, o voto vincular. Nós éramos obrigados a votar no mesmo partido de A a Z. Então, se tinha eleição, a gente era estimulado a votar para vice, vereador e deputados todos do mesmo partido. O governo tinha fortes bases municipais, um grande número de candidato a vereador e a prefeito e ele imaginava que vinculando o voto a vereador e prefeito a pessoa acabaria votando no candidato do partido ao governo estadual vinculado ao quadro naquela época. Aqui no Espírito Santo, o Gerson Camata fez uma campanha magnífica, digamos assim. Porque saímos do governo militar e o Gerson fez uma campanha que fez o contrário, puxou de cima pra baixo. Naquela época havia as tais sublegendas, o PMDB tinha muitos candidatos e foram eleitos candidatos improváveis, que o Gerson Camata puxou pela mão. O Vasco Alves, em Vila Velha, por exemplo, não era uma força que se imaginava que seria eleito. Então aquela eleição enquadrou o Brasil de cima pra baixo e os militares perderam em todos os estados da Federação. O PMDB, na época, elegeu na maioria do Brasil, então a vinculação de votos muda as razões de voto, muda a lógica de voto do eleitor.
Eu tenho a impressão, é um olhar meu, que na política brasileira tão confusa, eu manteria como quase toda Europa mantém, eleições municipais distantes das regionais. Deveria eleger como a gente faz mesmo. Acho que esse sistema é razoável porque leva o cidadão a pensar em seu município e não fazer como se fez naquele ano. Eu defendo as eleições separadas. É muito importante que se discuta a cidade, que se discuta a oposição nas cidades… O Brasil tem uma tendência a eleger personalidades, a gente vota em pessoas, não vota em partido. E raramente uma campanha discute projetos para a cidade, né? Discute as picuinhas do poder local, as diferenças, as pequenas disputas. Mas eu acho que o razoável é o crescimento de uma discussão mais qualificada com projetos que envolvem as cidades.

AN– Sobre a grande abstenção de votos nas últimas eleições, na sua opinião, qual o motivo disso acontecer? Seria falta de interesse da população, falta de opção ou o excesso de informação está fazendo com que o eleitor mude a ótica em relação aos políticos e comece a ver mais o político na vida privada e menos na vida que ele coloca no marketing da campanha?

J.A– Olha, eu acho que essa é uma tendência que antecede um pouco essa comunicação mais moderna, às redes sociais, à internet. Nós temos desde os anos 60, 70 um enfraquecimento das articulações coletivas. Quem eram os grandes atores dos eleitores durante o processo dessa época? Os sindicatos, o sindicato dos trabalhadores e a igreja católica tinham um papel relevante, então assim, vários mecanismos de construção coletiva do voto foram perdendo força coletiva e ganhando força as relações individuais, pessoais.

As redes sociais, com internet, WhatsApp, Facebook e todos esses instrumentos acabaram ampliando essa tendência, mas no Brasil a gente não pode esquecer que tem o voto obrigatório à brasileira né? Porque eu pago um boleto de pouco mais de 3 reais em casa e fico em dia com a Justiça Eleitoral se não cumprir com essa obrigação. Então nosso voto é obrigatório e não é ao mesmo tempo. Nos países do mundo onde o voto não é obrigatório, igual EUA e França, é comum que 50% se inscrevam como aptos a votar e desse total ainda há abstenção. Então a abstenção é um hábito da política moderna, é a morte da política, é um desinteresse por este campo. Eu acho que a população brasileira tem esse desinteresse muito forte e esse foi um ano especial porque tivemos a pandemia, o medo de sair de casa e isso desestimulou muito. Eu acho que o número de abstenções tende a se reduzir nas próximas eleições. Como em todas as democracias modernas, votar é uma escolha e não votar também. Tem que levar isso em conta.

AN- O presidente Bolsonaro disse recentemente que ele quer disputar a reeleição e que ele deve ganhar em pelo menos 18 estados. Que vai jogar pesado pra ganhar a Câmara e também ganhar governadores. O Espírito Santo é um dos estados alvos de Bolsonaro. Tem nome que podem surgir como Manato, Evair…surgiram outros nomes, como Sérgio Meneguelli. Na mesma semana dessa fala do presidente, o governador Renato Casagrande também anunciou todos contra Bolsonaro no Espírito Santo. Entre essa disputa de direita e esquerda você acha que podemos ver, de repente, Paulo Hartung e Renato Casagrande no mesmo palanque contra a direita?

J.A– Olha, eu acho que há um bolsonarismo que é maior que o Bolsonaro. Bolsonaro é um fenômeno efêmero. Eu não acredito na reeleição do presidente Bolsonaro e não acredito na força que ele tenha para fazer seu sucessor. É só você ver o que aconteceu nessas últimas eleições. Quantos prefeitos importantes o presidente Bolsonaro fez? O Crivella perdeu no Rio. Ele tinha o Russomano em São Paulo e perdeu. Todo palanque que ele subiu, derreteu. Então não acredito na força política dele. Mas eu acredito na força conservadora, eu acredito nas alianças das igrejas evangélicas conservadoras, na força dos pastores, eu acredito na mudança do desejo de romper com a esquerda, eu acredito na decadência do PT… Então assim: eu acho que os estado terão forças mais conservadoras disputando o poder, mas elas não serão obrigatoriamente representantes do Bolsonaro e do bolsonarismo. Eu acho o Bolsonaro um péssimo presidente da República. Eu acho que ele não vai deixar legado nenhum para o Brasil, nenhum legado positivo, só negativo. Se não começar essa vacinação agora, só vai continuar morrendo gente no Brasil. Nós vamos acabar sendo lembrados como o país no qual o coronavírus mais matou. Como é que um presidente desse vai para a reeleição? Ele fica fazendo esses espetáculos sozinho, gritando, autoritário…senta numa discussão com um Roberto Freire, com um Ciro Gomes. Senta com essa gente que tem anos e anos de estrada. Sente a pressão. Não acredito na eficácia eleitoral desse movimento.

Como exemplo, vamos pegar o Sérgio Menegueli que você falou que se encontrou com o presidente. Olha as declarações do Sérgio Menegueli acerca da crise sanitária. Não são favoráveis ao presidente. É muito difícil um prefeito dizer que está sendo bem conduzido. Então assim, eu acredito que há um movimento conservador e o presidente Bolsonaro perdeu a chance de fazer um partido político. Nenhuma corrente de pensamento no mundo todo, nem as correntes mais conservadoras, a exemplo do Benito Mussolini quando criou o conservadorismo na Itália, ele criou primeiro o partido, depois ele venceu as eleições. Esse negócio de juntar um monte de gente dos partidos como ele fez, acabou dando margem a muita gente desconhecida, muita gente inexpressiva. Em 2018 nós tínhamos um Bolsonaro com muita eficiência, com muita habilidade e com muita inteligência. Mas não se vive de 2018 para sempre. E ele se comporta como se fosse enfrentar uma outra eleição daquela forma. Então é preciso se organizar de forma diferente. Uma direita conservadora consiste em se organizar, mas não obrigatoriamente em torno de um presidente que agora, após o fim auxílio emergencial, depois do aumento da pandemia, vamos ver o que vai sobrar. Ele tomou posse num dia e no outro se lançou candidato a presidente da República. Ele não governa o país. Ele está em campanha efetiva, só que não vai dar certo. Ele não tá lidando com menino, ele tá lidando só com cobra criada. (Risos) Lembrei da frase de um antigo deputado simplório que lá no parlamento dizia “o mais bobo avoa”. Esse simplismo pra lidar com tudo isso só deu certo lá no começo quando a política estava caída no chão. Que nós ligávamos a televisão e eu me lembro daquela cena do deputado ligado ao presidente Temer correndo uma mala de dinheiro em São Paulo, deputados recebendo empresários…tudo isso impactou muito mal na sociedade. Mas o Brasil não vai viver para sempre naquele momento. Eu acho que a reorganização partidária é necessária, é importante e eu acho que ela virá, não obrigatoriamente em torno da figura do presidente.

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