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Fotógrafa portuguesa Sandra Ventura dá luz às histórias de idosos de seu país

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Uma bela fotografia pode ser um momento de extremo deleito aos olhos, capaz de mudar seu humor ou fazer refletir sobre os mais variados temas. Desde os primórdios dessa arte, lá nos anos 1800, com a criação do rústico daguerreótipo, os grande nomes nos mostraram rostos e fatos, que possibilitaram o desenvolvimento de pensamentos e debates. Da clássica Leica até a captação de imagens via celular, que domina o mundo virtual, a atração pela imagem é incontestável.

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Mas alguns fotógrafos acabam chamando a atenção pelo olhar sensível que mostram ao escolher o modelo a ser registrado. Profissional da área já mais de 20 anos, a portuguesa Sandra Ventura, de 43 anos, tem lotado a internet com suas obras, que registram pessoas idosas, que aceitam posar para as lentes da fotógrafa. Mesmo na pandemia, com Portugal também precisando se manter em quarentena, a fotógrafa não parou, se manteve ativa e realizando esse trabalho com os idosos, o que tem sido motivador para ela.

Moradora em Samora Correia, cidade a 40 km de Lisboa, Sandra respondeu algumas perguntas, por e-mail e redes sociais, ao Estadão. Ela conta que, como outros profissionais do segmento também costumam fazer, a alternativa para se manter no meio sempre foi fotografar casamentos, batizados e escolas, trabalhando em uma loja para atender os pedidos dos interessados. “Em uma altura da minha vida, saí da loja onde sempre trabalhei, pois e não queria mais dessa concorrência, pensei que tinha que fotografar algo que ninguém fotografasse”, conta Sandra.

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E foi exatamente nesse estágio de sua vida, há seis anos, que a fotógrafa ouviu de sua irmã, que é assistente social em um lar de idosos, que ela teve a ideia de fotografar esse público mais velho. “Eu não vacilei”, lembra.

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De lá para cá, Sandra diz que não tem mais noção de quantas imagens fez ou quantas cidades visitou, pois foram inúmeras, segundo a fotógrafa. “Sei que em Portugal já fotografei em todos os distritos que são 18.” Percebendo o material que tem em mãos, ela sonha em transformá-lo em um livro, mas no momento ainda não conseguiu concretizar a ideia. Enquanto esse desejo não acontece, ela prossegue na missão de ir aos lares de idosos e levar um pouco de magia com os registros fotográficos dos que ali estão por inúmeras razões.

Mostrando respeito por seus modelos e suas histórias de vida, Sandra conta que, em regra geral, todos adoram ser fotografados, pois se sentem bonitos e valorizados por ela, que está ali para vê-los, e pelas pessoas que estão diariamente com eles. “Não é fácil ser velho e tem que haver pessoas que possam fazer o seu melhor por eles. É o que tento fazer todos os dias”, reflete a artista sobre essas pessoas e conseguir fazer com que tenham algum momento diferente, pois geralmente têm uma rotina que faz com que seu dias sejam semelhantes.

As imagens feitas por Sandra conquistaram a internet, com o público emocionado com o que observa. Mas a fotógrafa relata que o convívio com os idosos nesses asilos ou casas de repouso não é simples, pois estão ali pessoas que têm suas histórias, mas que não podem mais se manter sozinhas ou os familiares sem alternativas, e claro há aqueles que preferem mesmo deixar pais, mães, avós, ali e não se preocupar mais. “Eu respeito muito as pessoas mais velhas, não apenas pelo que já passaram quando jovens, mas pelo que passam agora na velhice”, afirma Sandra, que explica ser também uma forma de lembrar de seus avós, dos quais tem as melhores recordações. “Eles me deram a minha base com seus ensinamentos. “Adorei ser a neta deles.”

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Sandra Ventura afirma que o empenho com seu trabalho é para fazer com que aquele dia seja um momento especial para os retratados. “Fotografo diariamente pessoas com demência, em cadeiras de roda, sem suporte familiar. Mas, sem dúvida, é a atividade que me permite propiciar a inclusão social.”

Para fazer as fotos, Sandra primeiro contata a instituição e aguarda pelo sinal positivo para ir ao local e realizar o trabalho. Chegando lá, com a ajuda dos trabalhadores que cuidam dos idosos, prepara os modelos, cuidando de detalhes dos cabelos, da pele, maquiagem e sugerindo adereços que possam agradar. “Todos esses pequenos detalhes, no final, fazem a diferença”, afirma a fotógrafa. Segundo ela, muitas vezes é um trabalho também de perseverança, pois há aqueles que resistem a ser fotografado, então é respeitado e fica de lado. No entanto, o que acontece muitas vezes é que, com o transcorrer do dia e das sessões de fotos, esses que relutaram acabam cedendo ao verem o resultado do que foi feito com os colegas.

E Sandra revela sua realização com esse seguimento que decidiu registrar, dizendo adorar seu trabalho. “Tenho, ao longo dos anos, investido em material para que as imagens sejam sempre as melhores”, diz. E, pelo que sente, percebe que as pessoas que fotografa gostam bastante também. “Por vezes não se reconhecem, mas pelo fato de lhe arranjarmos o cabelo, de lhes colocarmos uns adereços e uma maquiagem ligeira faz toda a diferença”, comemora.

“O que mais me emociona normalmente é quando as famílias dão importância aos seus velhinhos”, conta a fotógrafa, lembrando do caso de uma neta, que, sabendo da sessão de fotos em um determinado dia, saiu de onde morava, que era longe, para participar da sessão de fotos ao lado do avó. “Essa ligação entre nós duas se manteve ao longo dos anos, com ela sempre me dando notícias da avó, até o dia de sua morte, o que me deixou bem triste, mas, ao mesmo tempo, me deu deixou feliz por saber que aquela foto que fiz serviu para embelezar o túmulo da avó”, conta.

Outra história que a marcou foi quando uma senhora veio da França para Portugal para acompanhar a mãe nas fotos. “Esse foi um momento que me emocionou muito, porque é importante eu sentir o quanto as pessoas querem essa fotografias, e que faz sentido essas memórias que estou deixando para elas”, diz. Ela afirma que é assim que percebe estar no caminho certo.

E finaliza destacando a relação que surge desse contato com seus modelos idosos. A cada sessão, uma história diferente surge. Sandra diz que se pudesse passaria mais tempo fotografando, pois sente que isso faz bem para eles, que acabam emocionados, ou por se lembrarem dos parentes que não estão ali ou por se enxergarem na fotografia e constatarem o quanto estão velhos. Na verdade, eles adoram o momento. “Gosto de sentir que faço pessoas felizes e sou verdadeiramente feliz a fazer isto.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Eliana Silva de Souza
Estadao Conteudo
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