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Preço do arroz dispara e eleva o valor da cesta básica; marcas chegam a custar R$ 35 em Cachoeiro

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Os alimentos são os maiores vilões da inflação no país. Enquanto o Índice de Preços para o Consumidor Amplo (IPCA) subiu 2,44% nos últimos 12 meses, os alimentos tiveram alta de 8,83% no mesmo período. Pior: os alimentos mais caros são aqueles que compõem a mesa do brasileiro no dia a dia: o feijão preto acumulou alta de 28,9% este ano e o arroz ficou 19,2% mais caro, conforme divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quarta-feira. Esse aumento é visível nas gôndolas dos supermercados. Em Cachoeiro de Itapemirim, é difícil achar um saco com cinco quilos de arroz por menos de R$ 20. Algumas marcas custam quase R$ 35.

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O feijão caro obedece a uma mais simples: a sazonalidade. A safra não foi tão alta, o preço dispara. Mas a carestia do arroz obedece a várias causas. Uma delas, é também a queda na produção. A safra de 2019 foi quase 11% menor do que a anterior, segundo o IBGE. Uma das explicações para isso era justamente o preço do grão, que estava baixo na época. Os produtores apostaram, então, em culturas mais rentáveis. E esse é um processo difícil de reverter a curto prazo, avalia Celso Bissoli Sessa, economista, professor da Ufes e presidente do Conselho de Economia do Espírito Santo.

“O Brasil não faz nenhuma importação significativa de arroz, nossa produção é nacional. E a migração de uma cultura para outra não é algo facilmente revertido. Se os preços estavam baixos em 2019 e os produtores optaram por outra cultura, mesmo que o preço suba este ano, a produção não é de uma hora para outra. É uma resposta a longo prazo. Neste intervalo, o descompasso entre a oferta e a demanda é ajustado no preço. Se a demanda dispara e a produção não atende, temos a inflação”, pondera Bissoli.

Além da produção menor, o dólar caro influencia diretamente no preço do arroz.  “É a chamada inflação importada. Se há uma disparada do dólar, o produtor tem a opção de vender para o exterior e ter ganhos mais altos. E se vender para o mercado interno, ele vai negociar valores maiores. Não é um movimento do país, mas uma importação da inflação do mercado externo para o interno”.

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Se o preço está alto nas gôndolas dos supermercados, o sinal de alerta do consumidor acende. Tanto que a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) divulgou uma nota oficial falando da pressão que o setor tem sofrido por conta do aumento de preços repassados pela indústria e fornecedores. “Isso se deve ao aumento das exportações desses produtos e sua matéria-prima e a diminuição das importações desses itens, motivadas pela mudança na taxa de câmbio que provocou a valorização do dólar frente ao real. Somando-se a isso a política fiscal de incentivo às exportações, e o crescimento da demanda interna impulsionado pelo auxílio emergencial do governo federal”, comunicou a entidade, alertando para o desequilíbrio entre a oferta e a demanda no mercado interno.

“É um problema muito sério. O consumidor pensa que é o supermercado, mas apenas repassamos os preços. E o arroz, o óleo, a carne bovina, são commodities, quem regula o preço é o mercado internacional. Se há alta do dólar, há muita exportação e, a lei de oferta e procura faz com que os preços subam. Estamos muito preocupados”, avalia Hélio Schneider, superintendente da Associação Capixaba de Supermercados (Acaps).

 

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Carestia, até quando?

Na última quarta-feira, uma reunião entre a equipe econômica do Governo Federal, Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e Abras discutiu o assunto e tentou encontrar formas de reduzir o impacto da carestia dos itens básicos da alimentação do brasileiro.  Diante do pedido, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao Ministério da Economia, decidiu nesta quarta-feira zerar a alíquota do imposto de importação para o arroz em casca e beneficiado. A isenção tarifária valerá até 31 de dezembro deste ano. A decisão foi tomada durante reunião do Comitê-Executivo de Gestão da Camex, a partir de um pedido formulado pelo Ministério da Agricultura. O colegiado é integrado pela Presidência da República e pelos ministérios da Economia, das Relações Exteriores e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

“Com mais oferta, o preço cai. Acredito que daqui pra frente, isso deve melhorar. Vamos depender também do mercado externo. Pode ter um grande produtor com boa safra. Ela entra no mercado e o preço abaixa. Temos essa expectativa”, avalia Schneider.

De acordo com a pasta, a redução temporária está restrita à cota de 400 mil toneladas, incidente arroz com casca não parboilizado e arroz semibranqueado ou branqueado, não parboilizado, de acordo com a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Até então, a Tarifa Externa Comum (TEC) incidente sobre o produto era de 12%, para o arroz beneficiado, e 10% para o arroz em casca.

Segundo o economista Celso Bissoli Sessa, a solução é o estímulo à produção maior, mesmo que não dê resposta a curto prazo. “Não podemos falar em controle de preços. Mesmo que a produção aumente, que passemos a produzir mais arroz e outros produtos, é um dilema. Um país grande como a China (grande importador dos produtos brasileiros), quando aumenta as importações, dá esse efeito em todos os países. Para não sentirmos a variação, nossa produção teria de atender nossa demanda e à demanda para exportação. O problema é que nossa produção não consegue crescer tão rápido e a pressão do mercado internacional vai se abater aqui. No entanto, mesmo que a China compre muito, se o dólar ficar mais barato, teremos alívio nos preços. Um efeito pode compensar o outro”.

A culpa que era do chuchu, agora é do arroz

Quem viveu ou leu sobre a década de 1970, deve se lembrar da frase do então ministro da Fazenda Mario Henrique Simonsen. Questionado sobre a inflação, que chegou aos 4% em março de 1977, ele disparou: “Não se trata de inflação de demanda ou de custo. É inflação do chuchu mesmo”. A história foi tão surreal que o ministro, que estava em Nova York, decidiu dar um jeito nos hortifrutigranjeiros assim que chegasse no Brasil, alterando a fórmula no cálculo do custo da cesta básica. Na prática, se o chuchu estava caro, então era só reduzir a quantidade de chuchu da mesa do brasileiro que a inflação estava controlada.

Em 2012, foi a vez do tomate. Acusado de elevar os preços da cesta básica, ele ficou 76% mais caro naquele ano. Agora, chegou a vez do arroz, que tem assustado os brasileiros que chegam às gôndolas dos supermercados. O presidente Jair Bolsonaro garante que o produto não vai faltar no país. Em vídeos publicados nas redes sociais, o presidente fez um apelo aos supermercados para que as margens de lucro do arroz fiquem próximas de zero. Ele acrescentou que não pretende tabelar preços.

“Tenho apelado para eles, ninguém vai usar a caneta Bic para tabelar nada, não existe tabelamento, mas pedi para eles que o lucro desses produtos essenciais nos supermercados seja próximo de zero. Acredito que nova safra comece a ser colhida em dezembro, janeiro. O arroz, em especial, a tendência é normalizar o preço”, disse o presidente, na última terça-feira.

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