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O bolsonarismo rubro-negro

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Matheus Brum é mineiro de Juiz de Fora, jornalista e escritor

Por Matheus Brum
Olá, companheiros e companheiras. Tudo bem? Futebol e política, no Brasil, sempre caminharam juntos. Mas, o Flamengo de Rodolfo Landim está conseguindo levar este “casamento” a “oto patamá”, com as sucessivas articulações e aproximações com o governo federal.

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Infelizmente, para uma parte da torcida – na qual pertenço – e para o futebol brasileiro, a associação com o Governo Federal traz benefícios para o clube. Ao lado do bolsonarismo, o Mais Querido conseguiu pressionar e retornar o Campeonato Carioca e mudou a forma como são negociadas as transmissões televisivas do futebol no país.

Entretanto, não só nestas pautas o Flamengo se aproxima do bolsonarismo. A forma como a atual diretoria lida com críticas e com adversários é muito parecida com a estratégia adotada por Jair e seus bluecaps: ataques, notas inflamadas, tentativas de jogar os críticos contra a torcida e judicialização das polêmicas.

O bola da vez foi o colunista Bernardo Mello Franco, de O Globo, que fez críticas – corretas – do retorno aos treinos e aos jogos oficiais. Uma nota de repúdio virulenta no site da clube e um tweet de um Vice-presidente chamando Bernardo – um dos melhores jornalistas do país – de “repórter com r minúsculo”.

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Outro que tem sentido a ira da torcida é o comentarista Flávio Gomes, da Fox Sports, por ter dito em um dos programas do canal que a torcida do Flamengo age como “milícias digitais” ao atacar os críticos do clube. Antes, a diretoria entrou na justiça pedindo direito de resposta à uma afirmação do comentarista da ESPN Gian Oddi, que disse que o clube estava sendo “desumano” diante da tentativa de retornar o Estadual em março. A Justiça negou o pedido em 1ª Instância.

O pior de tudo é que estas atitudes, que mancham a história do clube, são celebradas por uma parcela significativa da torcida que, em êxtase pelos títulos de 2019, “compra” tudo que a diretoria faz. É assim ao criticar as famílias que pedem uma indenização justa no caso dos Garotos do Ninho; é assim ao defender a política absurda de preços do Novo Maracanã, que afasta o pobre, e base da torcida rubro-negra, do estádio; é assim ao considerar normal que um clube com mais de R$900 milhões de faturamento em 2019 dispense 62 funcionários em plena pandemia, e é assim ao considerar normal que o clube se associe à extrema-direita para conseguir “benefícios” contestáveis.

E a organização para rebater as críticas e “passar pano” diante de sérios equívocos administrativos se parece com os métodos usados pelos bolsonaristas: linchamento virtual, com direito a ameaças de processo por causa das críticas. Nas redes sociais, principalmente no Twitter, os flamenguistas se unem em uma série de tweets, tentando calar os jornalistas e comentaristas que disseram algo negativo.

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Este problema não acontece só nas redes sociais. As mídias alternativas, que cobrem o clube, diariamente, também não têm liberdade para tecer comentários críticos à administração, sob pena de terem as portas fechadas. Trabalhei em um destes veículos e saí, justamente, diante da censura de não poder escrever sobre os principais assuntos rubro-negros. A permissão da cobertura diária e de possíveis exclusivas com dirigentes e jogadores é uma forma de “cooptar” estes blogues e canais de YouTube a serem mansos diante das polêmicas que envolvem os cartolas da Gávea.

Só que, ao mesmo tempo que o Flamengo age como um “leão” nestes casos, é uma “tchutchuquinha” com os veículos tradicionais e não encara os principais repórteres do país no olho. Um exemplo disso é o fato de o presidente Rodolfo Landim não ter concedido, em 2019, uma entrevista coletiva sobre o tema do incêndio do Ninho do Urubu. Se “escondeu” atrás dos títulos e do sigilo de justiça decretado em cima do caso.

Sabedores de que flamenguistas compraram estes discursos, o clube vai aprimorando estes métodos. Só que a torcida do Flamengo é composta por 42 milhões de apaixonados. De diferentes linhas ideológicas, condições socioeconômicas, cor, religião e região onde mora. O clube, enquanto instituição, precisa respeitar e abraçar esta diversidade. Não pode controlar e trabalhar para uma parcela da Nação, que concorda com este linchamento virtual. Isso, inclusive, vai contra a própria história do clube, que a durante seus mais de 120 anos foi considerado o “clube do povo”.

O alinhamento ao bolsonarismo – na ordem política e na forma de lidar com às críticas e com a imprensa – fere a História do Flamengo. Machuca os torcedores que não concordam com estas medidas e precisam ver uma instituição mesquinha, que olha apenas para o próprio umbigo e só pensa em si mesma. Quem faz o Flamengo gigante como é são os torcedores. E estes precisam ser respeitados em sua diversidade. O clube não precisa do bolsonarismo. Já o bolsonarismo precisa do Flamengo para atingir uma base que eles não têm. Por isso nós, torcedores, não podemos deixar o clube ser usado desta forma.

Infelizmente, os cartolas se comportam como membros da classe média. Eram pobres, ascenderam economicamente, se sentem ricos, pertencentes à elite e, por isso, têm ojeriza a pobre. Ao mesmo tempo, passa a ser mesquinho e só deseja a melhoria para ele próprio, não se importando que a desigualdade econômica no futebol também traz problemas para o Flamengo.

É preciso união dos verdadeiros flamenguistas, que conheçam a História do clube e sabem o que representa o rubro-negro carioca para o futebol e país. Isso é necessário para que o clube não se torne antipático, mal visto e odiado por seus pares no futebol. E mais que isso, que o bolsonarismo não se infiltre ainda mais nas entranhas do clube, causando mais prejuízos e destruições.

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