Esporte Nacional

Estudando à distância, atletas olímpicos já se preparam para a aposentadoria

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Faltando um ano para a adiada Olimpíada de Tóquio, a rotina do judoca Rafael Buzacarini não se restringe a quimonos, tatame e academia. Livros, cadernos e muitas horas de aulas online passaram a acompanhar a vida do atleta de 28 anos, que tenta se antecipar ao futuro. O integrante da seleção brasileira já está pensando em como será a sua vida após a aposentadoria das competições.

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“Nós, atletas, estamos acostumados a pensar sempre em termos de ciclos olímpicos. Mas tem que ir um pouco além. Por isso decidi ter uma faculdade para que eu consiga entrar no mercado de trabalho já como graduado”, diz Buzacarini, judoca da categoria até 100kg, em entrevista ao Estadão.

Ainda sem planos de aposentadoria, ele cogita abrir uma academia quando chegar o dia de abandonar o quimono profissionalmente. Por isso, entrou na faculdade de administração há dois anos. É sua segunda tentativa de terminar um curso superior. Antes, tentou fisioterapia, mas os horários não batiam com treinos e competições.

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Desta vez, ele estuda à distância com uma das bolsas que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) vem distribuindo a atletas nos últimos anos, em parceria com o Instituto Olímpico Brasileiro (IOB). Nas próximas semanas, mais 50 serão concedidas a esportistas de alto rendimento do País – as inscrições terminam na quinta-feira.

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“Os horários são bem flexíveis no curso, o que favorece a organização. Para os atletas, a disciplina é fundamental. Temos horário para treino, descanso, alimentação, para tudo. E agora o estudo é mais um item para termos disciplina”, explica o judoca, que mora em São Paulo.

Buzacarini dividiu sua semana entre o judô e a faculdade. Ele dedica de duas a três horas por dia para os estudos às terças, quintas e sábados. Segundas, quartas e domingos são reservados para treino ou mesmo para descanso, dependendo da programação de trabalho, ao menos antes da pandemia.

Durante a quarentena, o judoca ganhou tempo extra para se aprofundar nas matérias da faculdade. “Consegui acelerar muito. Li muitos livros. Aprendi conteúdos novos e revi anteriores. Me dediquei bastante.”

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Indo um pouco além do judoca, a lutadora Giullia Penalber, do wrestling, já pensa no diploma da pós. Também sem perder os Jogos de Tóquio de vista, a atleta de 28 anos aproveitou a bolsa do COB para iniciar curso de pós-graduação em gestão de projetos, no começo do ano. Formada em administração, também com ajuda do comitê, ela já se vê atuando em entidades esportivas, como federações e confederações.

“Eu vivo o esporte, sei das dificuldades, das necessidades que temos. A gestão é um problema geral no Brasil. Precisamos estar com mais formação para auxiliar nestas áreas”, projeta a atleta, que vem conciliando estudos e treinos há anos, até mesmo quando se dividia entre o judô e o wrestling, modalidade que assumiu de vez no fim de 2014.

“Fiz faculdade presencial, foi bem puxado. Acordava cedo para preparar o almoço e saía de casa às 8h30. Só voltava depois das 22h30, quando acabava a aula. Passava quase o dia todo no CT. Perdi muita prova e trabalho. Mas consegui conciliar, até mesmo quando me dividia entre o judô e o wrestling”, lembra a lutadora, que mora no Rio de Janeiro.

Com a pandemia, a rotina ficou mais leve. E permitiu mais horas de estudo. “Encaixava o estudo à tarde e à noite, entre os treinos do dia.” Giullia tenta compensar agora o que poderá ser sacrificado no início de 2021, quando terá a terceira e última oportunidade para obter a classificação olímpica. “O último classificatório será em abril do ano que vem. Passei perto nas duas chances anteriores. Por isso tenho muita esperança. Tem tudo para dar certo”, aposta.

Giullia ainda busca a vaga em sua primeira Olimpíada da carreira. Quando era judoca, passou perto de ir para Pequim-2008. Buzacarini, por sua vez, competiu no Rio-2016. Ambos não descartam entrar no novo ciclo olímpico após Tóquio, pensando nos Jogos de Paris-2024. Até lá, eles já devem contar com diplomas e currículos mais recheados.

NOVOS PLANOS – Campeão olímpico em Barcelona-92, o diretor-geral do COB, Rogério Sampaio, sentiu na pele as dificuldades de deixar as competições e iniciar uma nova trajetória profissional. Após largar os tatames em 1998, o ex-judoca admite que sofreu para fazer a chamada “transição de carreira”.

“É um período doloroso para o atleta, principalmente para quem dedica às vezes 20, 30 anos ao esporte”, afirma o agora dirigente ao Estadão. Sampaio diz que viu até casos de depressão entre ex-esportistas. “Demora um tempo para perceber que hábitos de 20 anos não vão deixar de acontecer num estalar de dedos. Isso é a transição de carreira. Não é um processo fácil de ser superado.”

Na sua avaliação, há campo suficiente de trabalho para ex-atletas no mercado. “A indústria esportiva é muito grande. Um atleta de carreira longa, com muitas conquistas, tem vivência que não se encontra fácil no mercado de trabalho. Ele será bom para tomar decisões, para gerenciar. O atleta com estas vivências, se se preparar bem, tem campo enorme de atuação.”

Sampaio revela que, além da iniciativa de distribuir bolsas de estudo, o COB vai iniciar projeto para tentar encaixar ex-atletas em empresas. “Começamos a fazer estudo neste sentido para oferecer esta chance ainda neste ano. Queremos oferecer oportunidade de emprego, vamos contratar uma empresa especializada para isso”, afirmou.

Felipe Rosa Mendes
Estadao Conteudo
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