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Por que incomodam, as cruzes e os números? – por Marcos Freire

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Por que as covas incomodam, a ponto da desumanidade derrubar suas cruzes, como se fosse lixo na beira da praia. São cruzes! São vidas que se foram! São pessoas – mais amadas ou menos amadas, mas sempre amadas – que não estão mais aqui.

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Neste dia que escrevo este texto, são 41 mil brasileiros vítimas, não só de um vírus, mas também da inconsciência dessa gente que se diz de bem, mas que considera bem só aquilo que lhes cabe bem. Essa gente capaz de derrubar cruzes demonstra que empatia e respeito são palavras inexistentes em seus vocabulários e almas.

Mas por que incomodam, os números? Os números de mortos e casos de Covid-19 parecem uma senha para ligar a insanidade que começa no cara que tem a obrigação de dar o exemplo. O cara que fica lá em Brasília e que alguns chamam de presidente (eu não).

O cara que, mais uma vez, conclama à desobediência civil e as ações irresponsáveis, mandando as pessoas invadirem hospitais de campanha, para se certificarem que tem gente internada lá.

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Esse tipo de atitude, desse cara, estimula atos como o do vereador que invadiu um desses hospitais, contaminando todo o local e atrasando sua inauguração, e também aquele ser – de cabelos brancos e barriga protuberante de quem parece ter vivido sempre com fartura e talvez não conheça a dor da perda de um filho trabalhador e companheiro – que saiu derrubando cruzes, como se fosse o herói de uma causa.

Talvez os números incomodem, porque demonstram a total incapacidade de um governo que não consegue nem contar seus mortos, muito menos salvar as vidas de seus cidadãos. Então, a saída é deixar todos se contaminarem, porque vai todo mundo morrer mesmo! E daí? O que se pode fazer, não é mesmo? É mais fácil jogar o vírus pra debaixo do tapete das casas e das ruas, como se fosse algo que já estivesse aí e matasse muita gente há muito tempo e não houvesse qualquer obrigação do governo em tentar pará-lo. Afinal de contas, seria a vontade de Deus. Que Deus? O Deus que conheço ama, não mata.

E Deus ama por meio dos atos de quem ama e cuida do seu próximo. E é isso que significam as cruzes. O amor de quem ficou por aqueles que se foram. É isso que significa a luta dos profissionais de saúde e todos aqueles que estão trabalhando para que outros possam ficar em casa.

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É isso que significa contar os mortos dessa calamidade na saúde pública, porque cada um importa. Mesmo que fosse um morto, uma vida perdida importaria e mereceria nosso pesar e lágrimas. Nunca o descaso de quem não tem capacidade para governar, imagine, para amar o próximo.

Por isso, as cruzes nunca vão significar ações que serão compreendidas por aqueles que veem ameaça em todos que pensam e são diferentes deles. Essa gente de bem que não pensa. Apenas segue quem diz o que deve pensar. Não amam. Apenas amam o que alguém diz que devem amar.

Amar ao próximo como a si mesmo, não é amar apenas a si mesmo. Amar a pátria não é amar uma bandeira, um símbolo, é amar seu país e tudo que há nele, igualdades e diferenças, sejam raciais, culturais, religiosas. Ser patriota é lutar contra tudo que joga a sujeira para debaixo da bandeira e esconde a crosta e o flagelo que há debaixo desse pano verde e amarelo, tentando mostrar uma ordem e um progresso que só beneficia a essa gente que chuta cruzes na areia. Talvez porque não tenham forças para derrubar as cruzes que estão em nossos corações.

Essas nunca vão derrubar e nem queimar, porque são elas que nos levam em frente, para que outras cruzes não precisem mais ser fincadas nas praias, quintais, terreiros, morros, favelas, comunidades, aldeias, assentamentos, matas, sertões, palafitas, barracos… O vírus pode levar suas vítimas, mas esses que derrubam cruzes nunca vão conseguir levar nossa dignidade e desejo de um país justo, sem desigualdades, por amor a quem se vai, a quem fica e ao nosso Brasil e não deles… Nosso Brasil!

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