Coronavírus

Artigo: Combate sem líder

COMPARTILHE
282
Advertisement
Advertisement

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva

Advertisement
Continua depois da publicidade

Apesar da vida acelerada para quem se aventura a se dedicar  ao exercício do pastoreio, continuamente imerso nas inúmeras atividades paroquiais e suas exigências. Particularmente, sempre busquei conciliar os momentos intensos de  oração e trabalho com a busca pela informação, principalmente por meio da leitura – um tipo de comunicação que muito me atrai.

Durante este, necessário e salvífico, período de afastamento social, além buscar afinar a minha relação com Deus, comigo mesmo e com meus paroquianos, estou me dedicando a uma aproximação com alguns pensadores da atualidade por meio da leitura. Suas reflexões tomam direções diversas: da origem da pandemia até a reorganização do mundo após esta triste situação em que passamos como humanidade. Em meio a tudo isso, três temas me chamam a atenção e agora, de maneira resumida, partilho com você.

O primeiro é que a pandemia  mostrou ao mundo que o grande desenvolvimento tecnológico, estimado pela humanidade, mostra seus limites. As transformações são inúmeras e passam pela política, saúde, economia, modelos de negócios, relações sociais, cultura, psicologia social e a relação com a cidade e o espaço público, entre outras coisas.

Continua depois da publicidade

O segundo tema presente nas reflexões se refere às projeções de um cenário de mundo  pós-crise sanitária. Na coluna de opinião de 13 de abril de 2020 do Jornal espanhol, El País, o Clayton Melo, jornalista e analista de tendências, lança um convite  a olharmos para o depois da pandemia. Citando diversos autores, afirma que o coronavírus foi um acelerador de futuros. O mundo anterior ao coronavírus não existe mais. No entendimento do colunista, mudanças que levariam anos aconteceram de maneira assustadora em meses. A pandemia antecipou mudanças em cursos, o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social.  Temas ainda não perceptíveis ganharam sentido. Um exemplo claro é o fortalecimento de valores como solidariedade, o questionamento do modelo de sociedade baseado no consumismo e no lucro a qualquer custo. “Consumir por consumir saiu de ‘moda.”

Imagino que o terceiro tema seja o mais pertinente. Trata-se da percepção do vazio de liderança mundial, sem perspectiva de preenchimento, num momento marcado pela escassez de habilidade nos indivíduos que atuam no cenário mundial. Pelo contrário, aqueles que se destacam entre as grandes economias promovem a xenofobia, o isolamento e a desconfiança, principais características de um sistema internacional sem norte. Segundo outro artigo do referido jornal, assinado pelo filósofo e historiador Yuval Noah Harari, estamos atravessando esta crise sem nenhum líder mundial capaz de inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.

O filosofo alerta: sem confiança e solidariedade mundial não poderemos deter a atual epidemia e, muito pior, certamente veremos mais epidemias deste tipo no futuro. O pensador tem razão; as necessárias  e eficazes medidas de quarenta serão insuficientes sem uma liderança que conduza o mundo à cooperação internacional. Não podemos mais pensar unicamente em nossa rua, bairro, cidade, estado e país. Precisamos repensar, por exemplo, um modelo de ação protetiva  a nível global. Temos o mesmo interesse: restringir o avanço como forma de proteção de todas as pessoas em todos os países. Nossa luta comum é vencer esse perverso e insistente inimigo, numa conjuntura  em que políticos irresponsáveis sabotam a fé na ciência e promovem ações interesseiras e nacionalistas como única saída.

Advertisement
Continua depois da publicidade

Neste contexto, não muito animador e sem data para terminar, em que é preciso combater um inimigo invisível e sem liderança que inspire a cooperação, uma das poucas esperanças para as pessoas de fé é a aposta na intervenção divina como promotora de mudanças. Assim, unamo-nos a suplicar que Deus suscite ou inspire mandatários que sirvam de exemplo na organização de um modelo de cooperação mundial, como forma de fechamento da única fronteira que não pode permanecer aberta: a fronteira entre o mundo humano e o mundo dos vírus.

Advertisement