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Artigo: A rua da cadeia!

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Por Júlio Cezar Costa

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Estudo da neurociência revela que o ser humano consome mais de 82% do tempo de seus pensamentos vivenciando as coisas passadas. Nesta crônica, volto o meu pensar novamente para o Alegre, abençoada terra da hinterlândia Sul capixaba, entre as montanhas próximas ao Caparaó.

Lendo as redes sociais, me encontrei com os dias de minha infância na rua da “cadeia”, lugar em que com os pés descalços e com sorriso nos lábios, brincávamos com os nossos amigos Ricardo e Marcelo Galvêas, Danilo e Fabrício Guimarães, Saul Schwan e com o meu irmão mais novo, Marcos Costa.

Não me contive e liguei para o Ricardo Galvêas, que havia postado as reminiscências no Facebook. Foi prazeroso, depois de algum tempo, poder falar com um dos meus amigos de infância, o “Cacá” do Dr. José Clélio.

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Nossos dias eram vividos nas “peladas” de futebol no “campinho” da cadeia pública, nas piscinas do Sport Club Rio Branco e nas salas de aula do inesquecível Colégio Aristeu Aguiar, belo e imponente, no topo da avenida Dr. Henrique Wanderley. Tempo de saudosa lembrança e expressão inimaginável de alegria.

Éramos desprovidos de preocupações. Havia tempo para estudar, brincar e ter amigos. Ansiávamos pelo final de tarde, com a turma toda se reunindo para jogar a “pelada” diária até o anoitecer.

Outra coisa que atraía muito a atenção da meninada era jogar bolinha de gude e rodar o pião, na calçada de terra da casa da Dona Jandira Barros. Era espetacular viver daquele jeito extensivo.

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No final de semana, depois de assistirmos aos gols da rodada, sempre na noite do domingo, íamos dormir, na certeza de que a segunda-feira seria um dia de reencontro entre a meninada, com suas brincadeiras sadias, um “zombando” do outro, dependendo do resultado dos jogos dos times do Vasco da Gama e do Fluminense.

Marcelo, Ricardo, Saul, Marcos e Eu, éramos todos vascaínos. Danilo e Fabrício, em menor número, formavam a torcida tricolor ou “pó de arroz”. Éramos felizes com nossa forma simples de diversão.

Época tão pueril, mas efetiva para a formação das funções psicológicas superiores em nosso cérebro. Respeito, amizade, compromisso, organização, correção de atitudes, senso de responsabilidade e amor fraternal foram marcas que emolduraram o nosso caráter.

Hoje, quando se sabe, cientificamente, estar provado sobre a necessidade de educar as crianças na primeira infância e na adolescência, constatamos que nossos pais e professores nos fizeram ter essas características que não são inatas, mas aprendidas na definição comportamental.

Éramos crianças de fato!

Obedecer a pai e mãe não era somente um ensino teórico e bíblico. Na prática as regras eram bem sinalizadas por nossos pais e mestres. O controle inibitório era ativado, às vezes, por um olhar severo que valia mais do que muitas palavras. Era a educação para a vida, para a construção de um futuro bem sucedido, sem vícios e deformações de caráter.

Percebo que o escritor Mario Vargas Llosa acertou em cheio quando, em seu célebre livro “A civilização do espetáculo”, indica que todo processo de educação se forma através da Família, da Igreja e da Escola. Esse tripé foi fundamental em nossas vidas, respeitadas as peculiaridades dogmáticas de cada um daquela turminha de amigos.

Passados mais de quarenta anos, hoje vejo que todos aqueles meninos, se tornaram homens responsáveis, realizados e bem-sucedidos, mantendo os vínculos afetivos com a terra natal.

Ah, talvez você que nos lê diga: hoje você não vai falar mais dos apelidos, conforme prometera? Vou sim. Promessa é dívida!

Apelidar pessoas é uma marca inata do povo alegrense. Já listei mais de 350 em meus artigos anteriores, mesmo assim em minhas pesquisas tenho vários para incluir em nova relação de apodaduras.

Não podendo fugir do hilariante costume, termino este artigo acrescentando à minha antonomásia, outros apelidos. Vejam só o que trago: o vereador com mais mandatos no Alegre foi o Sr. Wilson Nogueira da Rosa, apelidado de “Wilson Garcia”, e ainda, o Bambu, o Mané Barão, o Sr. Doca, o Taipá, o Moqueca, o Sabonete, o Ciroca, o Biquinho, o Dim, o Boca de Mula, o Macuco, o Sr. Bicudo, o Tucano, o Curió, o Centopéia, o Carrão, o Sr. Tuta Farias, a Dona Tota e o Sr. Loló, que se diga, não tem nada a ver com drogas, mas, a seu tempo, foi um viajante das estradas brasileiras, com o seu companheiro de sempre, qual seja, o caminhão de cargas.

Por hoje é só, mas adiante voltarei às crônicas alegrenses.

*Júlio Cezar Costa é professor universitário e coronel da PMES

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